Resenha: Doves – Constellations for the Lonely (2025)

Resenha: Doves – Constellations for the Lonely (2025)

(Reprodução)

2020 foi um ano esquisito pra cacete pra todo mundo. Talvez tenha sido um pouco pior pros membros da Doves, em especial para o vocalista e baixista Jimi Goodwin. Em setembro daquele ano, a banda lançou seu retorno oficial após uma década de hiato, The Universal Want. Quando tudo parecia estar encaminhado — e o álbum chegou ao primeiro lugar das paradas britânicas —, a turnê que o acompanharia foi cancelada por conta de questões de saúde mental de Goodwin. Na esteira desses acontecimentos veio Constellations for the Lonely, o sexto álbum do trio.

“Renegade”, o primeiro single, abre o álbum. O som distorcido do início logo dá espaço para notas esparsas e etéreas de piano e a voz rasgada de Goodwin. Em seguida, o baixo e a bateria entram, e é tudo absolutamente maravilhoso. Há algo especial quando a música consegue transmitir emoção. E ela transborda no refrão dessa faixa. Você nem precisa prestar atenção na letra, ou mesmo entendê-la. A voz e a harmonia fazem todo o trabalho, e o sentimento escorre pela caixa de som.

Na sequência, “Cold Dreaming” troca a densidade emocional por um riff hipnótico e contagiante. É um hino indie na melhor tradição da banda, com os irmãos Williams dividindo os vocais e entregando uma das faixas mais interessantes do disco. Em seguida, “In the Butterfly House” desacelera, mantendo o clima introspectivo com outro riff marcante — só que agora envolto em melancolia. A alternância entre intensidade e contemplação dita o ritmo do álbum, como uma respiração irregular entre dias bons e ruins.

O “lado B” mergulha de vez nas sombras. “Last Year’s Man” e “Saint Teresa” são carregadas de peso emocional, enquanto “Stupid Schemes” resgata elementos clássicos da sonoridade da Doves, com camadas sonoras que crescem até um clímax sutil e devastador. A produção, assinada novamente pelos próprios Doves em parceria com Dan Austin, sabe exatamente quando recuar e quando explodir. Tudo soa meticulosamente imperfeito — e é aí que mora a beleza.

Mesmo nos momentos mais escuros, há luz. Em “Orlando”, a banda soa fragilizada e sincera como nunca, quase despida. Já “Southern Bell” encerra o disco com uma nota melancólica, mas cheia de esperança — uma espécie de aceno ao futuro, sem negar o peso do passado. Um resumo perfeito para um álbum que nasceu da dor, mas se recusa a se entregar a ela.

A banda persiste. A música persiste. Os irmãos Williams seguem em turnê com músicos de apoio, sem Goodwin. O mote da composição do álbum — e que se estendeu a tudo mais que está relacionado à banda — é a divisão do fardo. Os vocais foram divididos, assim como a responsabilidade. Assim, os três membros sobreviveram à maré de problemas que se arremessou contra a banda — especialmente sobre Goodwin —, suportando tudo juntos. O resultado? Carregado de emoção, Constellations for the Lonely é um dos melhores lançamentos do ano — e um dos melhores da carreira da Doves.

9.2

Constellations for the Lonely – Doves

Gravadora: Universal Music Group

Aqui sobra uma coisa que falta nos trabalhos de muita gente: Alma.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.