Resenha: Viper – Tem pra todo mundo (2025)

Resenha: Viper – Tem pra todo mundo (2025)

(Reprodução)

Em 1996, o Viper lançou seu quinto álbum de estúdio, Tem pra todo mundo. O disco marcou uma guinada drástica na carreira da banda. Além de ser o primeiro com letras em português, foi concebido numa entressafra em que os integrantes resolveram experimentar com outros estilos para tentar cativar um público mais amplo no Brasil. Na época, o Viper era considerado uma das grandes potências do metal nacional, mas ironicamente tinha mais reconhecimento fora do país. Só que, em vez de explorar variações dentro do próprio metal — como o Sepultura fez em Roots, lançado no mesmo ano — a banda do finado Pit Passarell decidiu seguir por outro caminho.

O resultado foi um álbum de doze faixas que foi absolutamente massacrado pela crítica e pelo público.

Tem pra todo mundo foi um desastre tão grande que inaugurou um hiato de dez anos na carreira da banda. Acham que estou exagerando? Foi um desastre nível Vesúvio, Krakatoa, o asteroide que caiu no México e extinguiu os dinossauros. A coisa foi tão feia que o guitarrista Yves Passarell, irmão de Pit, acabou indo parar no Capital Inicial.

Pouco menos de um ano após a morte de Pit, os integrantes remanescentes decidiram revisitar o projeto. Com a ajuda do aplicativo Moises — ferramenta de inteligência artificial que separa faixas de gravações — o guitarrista Felipe Machado recuperou os vocais originais de Pit, bem como as guitarras de Yves, regravou suas partes e relançou o polêmico álbum.

Sabendo de tudo isso, pergunto: PRA QUÊ?!

Eu entendo o apego emocional ao disco, especialmente depois da partida de Pit. Entendo até que os fãs hoje sintam certo carinho nostálgico. Mas algumas coisas merecem ficar no passado. Eu mesmo sequer sabia da existência desse álbum até o mês passado — e confesso, com veemência, que minha vida ficou um pouco pior depois de ouvi-lo. Se eu não soubesse que era um álbum da Viper, pensaria que era só mais um disco de rock nacional daqueles que eu desço a lenha por aqui de vez em quando, com letras querendo soar inteligentes e uma produção razoável.

Veja bem: razoável. Não boa. O baixo mal se ouve, a bateria soa chapada e sem ambiência. Os vocais são ótimos, mas elogiar Pit Passarell é chover no molhado: ele era incrível. As guitarras, especialmente as regravadas, têm peso e potência, mas se perdem nos chavões metaleiros de um disco que insiste em ser pop rock.

As músicas não são péssimas, apenas genéricas. Tem pra todo mundo não é intragável, mas vive no limiar da mediocridade. Não há retrabalho, remasterização ou ressurreição que o redima. Talvez seja um disco que devesse permanecer restrito à memória afetiva de alguns fãs — e à nostalgia de quem, trinta anos atrás, torceu o nariz e hoje tenta encontrar nele algum valor oculto.

Eu, sinceramente, só consigo pensar no dano ambiental e na água gasta ao usar inteligência artificial para ressuscitar esse belíssimo desastre. Acho que usaram até pra refazer a capa…

5.5

Tem pra todo mundo – Viper

Gravadora: Wikimetal Music

Tem pra todo mundo. Beleza, mas vocês se perguntaram se alguém iria querer?

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.