O dia estava meio feioso. A chuva ia e vinha, mas eu e minha filha fomos ao Aracuã Festival, evento gratuito que aconteceu naquele sábado na Praça do Espelho d’Água, no centro do bairro da Pedra Branca. Por acaso eu estava na cidade por conta do Dia dos Pais e pensei que seria um bom programa para dividir com ela, de treze anos. Rebecca vestiu sua melhor camisa do Nirvana e um cinto de tachas, enquanto eu puxei do armário a minha do St. Pauli. Saímos resolutos de casa, prontos para encarar o tempo instável.
Infelizmente cheguei atrasado e perdi os shows da joinvillense Horney e da Os Gravateiros — atração “surpresa” divulgada poucos dias antes. O trânsito da Grande Florianópolis parece só ter piorado nestes anos desde que me mudei para São Paulo. Quando chegamos, a chuva dava trégua e o palco já estava sendo preparado para a próxima banda.
A Soul Cream trouxe muito swing e grooves contagiantes, colocando a plateia pra dançar. Alguns insistiam em ficar sentados, mas, aos poucos, as pessoas iam se aproximando timidamente do palco. A banda promete entregar funk, soul, blues e mais um monte de coisa, mas incrivelmente não deixa o som virar uma farofa. Oficialmente um trio, a banda veio acompanhada de vários músicos e backing vocals, preenchendo o palco e ocupando todo o ar numa parede de som extremamente dançante.
Na sequência, a Demorantes misturou irreverência e atitude num show rápido, mas cheio de boas ideias — daqueles que deixam a sensação de que a banda ainda vai crescer muito. É aquele rock típico de power trio, com muita energia e riffs sensacionais — além de belíssimas harmonias vocais. Formada pelos irmãos Gabriel e Vitor Fernandes com o baterista Geferson Batista, eles fizeram o show que minha filha mais curtiu naquela tarde.
De Brusque, a Torvelim começou de forma bem irregular, se atrapalhando na montagem do palco e demorando para engrenar. Na segunda metade do show, a banda encontrou melhor o ritmo e entregou mais energia, conquistando parte do público. O vocalista Luiz Libardo, por sua vez, parecia encarnar uma persona meio Liam Gallagher. Pose ensaiada, brincando com uma meia-lua e maracas, cantando com o lábio superior e nariz. No contraste com as outras bandas, a Torvelim foi a única sem uma unidade visual no palco. De fato foi estranho ver o baterista meio mandrake de touca e Juliet no meio do resto da banda com indumentárias tipicamente indies.
Foi nesse momento que a entrada da Yaju e os Hipertensos funcionou como um refresco. Começava a escurecer quando subiram ao palco, todos vestidos com capas de chuva amarelas. Ironicamente, a chuva já havia ido embora para não voltar mais e o sol ainda aparecia entre as nuvens. O detalhe cênico casou perfeitamente com o clima do festival, e o grupo entregou uma apresentação cheia de humor e presença de palco marcante. A voz do vocalista Yaju é sensacional! Acompanhados do tecladista Diego Stecanela, conhecido da cena da Ilha, e de metais, fizeram meu show favorito da noite.
Também uniformizados, os integrantes da Akanoá mostraram ser a banda mais esperada do público — ou pelo menos a que mais fãs levou ao Aracuã. A cada refrão ecoado pela plateia, ficava claro que eles já têm um espaço sólido na cena local. Ao final, o público ainda conseguiu arrancar um bis. A banda prontamente atendeu e tocou “Agricultor”, do álbum lançado em abril deste ano.
Todas as bandas deram o seu melhor. Os shows curtos, de cerca de trinta minutos, potencializaram a intensidade: cada grupo tocou como se fosse o show mais importante de suas vidas. Talvez fosse mesmo. Mas saí de lá com a impressão de que todos merecem palcos maiores e públicos ainda mais numerosos.
A anunciada “celebração do Palhostock” acabou restrita a um painel próximo ao palco, com fotos e lembranças do festival de cinquenta anos atrás, além do depoimento de um senhor que disse ter estado lá em 1975. Faltou, porém, uma homenagem mais viva ao legado do evento e, principalmente, aos artistas que subiram ao palco naquela tarde. Curiosamente, com exceção da Horney e da Torvelim, todas as outras bandas do lineup eram da própria Palhoça.
(Nota do redator: um outro cavalheiro — visivelmente embriagado — também disse ter participado do Palhostock, mas, questionado por alguém da produção, se corrigiu e afirmou que na época morava em São José e só tinha ouvido falar do festival).
Se o Palhostock ficou mais na lembrança e no marketing, o Aracuã Festival cumpriu uma missão importante: reunir uma diversidade de bandas catarinenses, autorais e independentes, em um evento aberto que fez o público cantar, dançar e vibrar junto a céu aberto. Algo que eu não via desde os tempos do saudoso UFSCTock.
E, no plano pessoal, o festival me deu algo ainda maior: a chance de compartilhar esse pedaço da minha vida com minha filha. Entre fotos, anotações e comentários sobre cada apresentação, passamos o dia curtindo juntos aquilo que nos une — a música. Uma memória que vou guardar pelo resto da vida.



