Era uma noite qualquer no grupo de WhatsApp dos redatores do Under Floripa e meu colega Fred di Lullo me pergunta se eu tenho as manhas de resenhar o último disco do Rogério Skylab. Eu olho pra minha pauta e penso que não pode ser pior que nada que eu estou procrastinando no momento, e peguei a bucha. Eu nunca embarquei no hype do Skylab e sempre achei tudo meio forçado, entre a paródia, a autoparódia e o nonsense. Musicalmente também não faz sentido na minha cabeça. A fonte estilo Misfits, o calvo-cabeludo, as entrevistas bizarras, chuvas de cigarros…
A verdade é que existe muita coisa pra eu não gostar do Skylab, mas eu também nunca me aventurei muito a fundo pra saber se realmente não gosto ou se só me levo a sério demais pra apreciá-lo. E, com tanta música no mundo, por que perder tempo com isso quando eu posso ouvir o Led Zeppelin II de novo?
Aí pego este disco pra resenhar. A capa, claramente feita nos stories do Instagram, não me anima. A lista de faixas começa com “Mão no pau”, um início nada promissor. “Você deu”, “Eu vou te dar”. Mais paus e “As Coxinha de Catupiri com Camarão”…
Eu me perguntei onde estava me metendo.
Logo no primeiro segundo tive que conferir se eu realmente estava ouvindo o artista certo. Adianto umas faixas, volto ao início. Revisito a discografia do Skylab. Ouço algumas faixas da Trilogia do Fim. Volto e escuto “Cadê meu pau?”, “Empadinha de Camarão” e “Tem cigarro aí”, até chegar à conclusão de que sim, era o artista certo. Talvez no disco errado — ou certo (?) — do artista errado — ou certo.
Sinceramente, eu estava pronto pra odiar cada segundo deste negócio. Aí me peguei ouvindo “Mão no pau” no carro e sorrindo. As faixas “Acontecimento” e “Fui por aí”, com participação da mineira Clara Bicho, são excelentes. A voz dela — especialmente nas harmonias de “Fui por aí” — traz uma leveza inesperada num trabalho que já é de uma sutileza ímpar.
Sim, é só voz e violão. Um disco tão nu quanto um pau exposto numa fotografia em preto e branco na parede de uma galeria de arte contemporânea. Provavelmente isso torna ele o álbum mais coeso da discografia do Skylab. Talvez seja o seu álbum mais autêntico.
Talvez.
A ironia é que o Skylab me ganhou justamente quando eu baixei a guarda. Eu não virei fã de carteirinha nem finalmente “entendi” o personagem, mas esse disco funciona fora da moldura do circo habitual. No violão cru, sem o barulho das autoparódias, sobra o compositor. E — sem meias palavras — ele é bom.
Claro, tem pau, duplo sentido, catupiri escorrendo pela garganta e aquela linha tênue e infame entre genialidade e trollagem. Mas a graça é que, no fim, nada disso importa. É um bom disco, com boas músicas. Me fez rir, me fez prestar atenção, curtir as progressões de acordes e, pra minha surpresa, eu acabei gostando mais do que eu gostaria de admitir.
Trilogia da Putrefação Vol. 1 – Rogério Skylab
Gravadora: Independente
É como se o Toquinho tivesse caído num caldeirão de ácido lisérgico e fosse exposto durante a primeira infância aos quadrinhos do Robert Crumb.
