Sobrevivi a mais um festival.
O dia 7 de setembro de 2025 foi o tal “Dia do Rock” no The Town. Um caldeirão de bandas veteranas, filas intermináveis, ativações que pareciam armadilhas de marketing e o eterno abismo entre quem paga o VIP e quem mastiga poeira no chão.
A seguir, algumas notas sobre atravessar Interlagos e sobreviver a mais um festival gigante.
Deslocamento
De todos os eventos que já encarei no Autódromo de Interlagos, este foi o mais tranquilo para chegar. Não usei o Trem Expresso, mas a simples existência dele já ajudou a desafogar tanto a estação Interlagos quanto os trens comuns da CPTM. A entrada também foi menos sádica: nada daquela volta quilométrica, agora bastava acessar pela esquina da Avenida Feliciano Correia. Checkpoints rápidos para ingresso e meia-entrada, mas a revista foi incômoda. Tirar tudo dos bolsos, esvaziar mochila. Quase perdi meus bottons porque eram considerados “objetos pontiagudos”. Felizmente, um supervisor rolou os olhos ao ver a periculosidade dos adereços e liberou.
Curiosamente, apesar do rigor, alguns sinalizadores entraram no festival.
Estrutura
Banheiros decentes, razoavelmente limpos e sem fila — até a metade do dia. Depois, mulheres já reclamavam de lixeiros transbordando nos femininos e sem gênero. A comida, um caos: filas desorganizadas, estandes vendendo bebida e comida juntos, espera infinita. As filas nos totens de autoatendimento para a cerveja também eram grandes, e apesar da grande disponibilidade de torneiras, havia pouca gente para orientar e muitas vezes a fila se formava mesmo tento torneiras disponíveis. Para piorar, relatos de gente que só encontrava cerveja à venda. Uma amiga perdeu dez minutos de vida para conseguir um simples copo d’água.
Ainda bem que eu trouxe as minhas garrafinhas.
Palcos
Confissão: não faço ideia de onde ficava o tal Palco Factory. Não que eu fosse ver Tihuana (puta que pariu), mas passei o dia inteiro e não vi nem sombra dele, nem o tal São Paulo Square. Já o Quebrada estava escondido atrás de ativações de patrocinadores. Ficou a sensação de que a piscina de nuggets da Seara ganhou mais destaque do que artistas pretos escalados para tocar ali.
O Skyline foi outro deboche. Montado em um “leve” aclive, sorte de quem não tinha um tropeço na frente. As estruturas gigantes dos arrays pareciam mais decorativas que funcionais. E os camarotes? Pra mim, ficou claro que o festival foi feito para quem estava no alto. Quem estava no chão, azar.
Ativações
Até tinha umas coisas legais, uns brindes interessantes, mas sempre o mesmo enredo: fila, agendamento que ninguém sabia como fazer, pagar por um copinho de café…
Como disse um rapaz que vi no TikTok: “show não tem fila”.
Falando sinceramente: como bebedor voraz de café, fiquei chateado ao descobrir que o único disponível era numa ativação da Três Corações. Criei expectativas demais depois de vê-los entre os patrocinadores.
Shows
Capital Inicial
Sério, por que ainda chamam essa banda pra tocar em festival? O Dinho não canta, a banda não toca, as músicas são sofríveis. Ainda tiveram a coragem de mandar um cover de “Should I Stay or Should I Go” da The Clash mais constrangedor que o figurino do Dinho.
Existe alguém que realmente goste de Capital Inicial ou estamos todos pagando, até hoje, o preço do surto coletivo que foi o Acústico MTV dos anos 90?
CPM 22
Nada novo sob o sol. Deve ter sido o oitavo show deles que vi na vida. Nostalgia bateu, o público cantou, missão cumprida. Provavelmente verei o nono em breve em algum outro festival.
Pitty
Um dos grandes momentos do dia. Segura, sensual, voz afiada, setlist redondo, rodinha na plateia, descida do palco. Showzaço.
Ainda fico indignado que os discos dela nunca conseguiram capturar a energia da Pitty ao vivo.
Punho de Mahin & MC Taya
Punho de Mahin não brilhou desta vez. Mas MC Taya tomou o palco pra si: carisma, energia, presença. Merecia fácil um horário solo.
Bruce Dickinson / Bad Religion
Vi pelos telões. Quem conseguiu chegar perto garante que ambos entregaram o que se espera de veteranos.
Black Pantera
O show mais potente do dia. Energia absurda, setlist afiado, público na mão. Foda demais. Claramente mereciam um palco maior. Entrei numa roda, caí, comi poeira, me levantaram e continuei correndo. Olhei pro lado e lá estava o @ocaradometal_ batendo fotos com fãs no meio da roda. Paro mais uma vez e tem um cavalheiro vendendo cerveja enquanto o pau comia na roda com ele no centro, sem qualquer sinal de perturbação. Tudo isso ao som de “Revoluçao é o caos”.
Surreal.
Iggy Pop
Não rolou “Punkrocker” pra fechar, mas teve “Louie Louie” e um arsenal de clássicos. O velho segue imbatível (e ainda alérgico a camisetas). Daqui uns anos vou poder dizer de boca cheia que assisti a um show dele.
Green Day
Billie Joe Armstrong mostrou por que merece lugar na prateleira dos grandes frontmen do rock. Público hipnotizado, só hit atrás de hit. Teve música pros fãs antigos, teve música nova, chuva de papel picado e uma pessoa vestida de coelho puxando o coro de “Blitzkrieg Bop”.
Pena ter começado tão tarde. Exausto e dolorido, não consegui aproveitar como deveria. Mas é isso. Quem quer conforto que assista pelo canal BIS.
Termino outro festival atravessando a cidade com os pés e joelhos doendo, me perguntando por que ainda faço isso comigo mesmo, jurando nunca mais ir a outro festival. Mas sei que, no dia seguinte, vou acordar e já estarei pensando no próximo.



