Reverência e Catarse: Massarifest 2025

Reverência e Catarse: Massarifest 2025

(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Celebrando o “Reverendo” Fábio Massari, o Massarifest 2025 trouxe shows memoráveis e uma catarse coletiva

Antes de começar a crônica dos acontecimentos deste domingo, é importante fazer uma nota sobre o próprio “Reverendo” Fábio Massari. O bem-humorado professor circulava pela Fabrique, ora mais próximo ao palco, ora entre nós, meros mortais que estávamos ali para prestigiá-lo em seu aniversário: o Massarifest. Entre jornalistas, figuras conhecidas, músicos, expositores e público em geral, a reverência que todos — repetida ad nauseam pelas bandas no palco — têm por ele era palpável. Estávamos lá porque, em algum momento, ele entrou em nossas vidas e nos presenteou com a coisa mais bela que existe no mundo: a música. Com ele, ao longo dos anos e por tantos canais de comunicação diferentes, conhecemos artistas, canções, discos e tantas outras descobertas, alimentando uma sede infinita por conhecimento musical. Uma sede inextinguível, que persiste até hoje e nos acompanhará para sempre.

No domingo eu estava acompanhado de amigos que, como eu, têm essa sede por música. Amigos que fiz justamente porque amamos música mais que tudo e, no ar frio da Fabrique, senti que estava cercado de iguais.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

O combo das bandas Retrato e Oruã abriu os trabalhos em clima sossegado e confortável. No palco, o baixo firme segurava tudo enquanto as guitarras, a viola e os teclados criavam um mar de texturas que parecia não ter fim. Era quase uma conversa entre instrumentos, cada um trazendo um detalhe novo. Eram tantos músicos competentes espalhados pelo palco que, por vezes, era difícil se concentrar nas individualidades misturadas num conjunto tão coeso. O set foi crescendo até o fim e terminou com peso, abrindo o apetite para o que viria depois.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Com a Bufo Borealis, a noite entrou no território do virtuosismo — mas daquele saboroso, que não pesa nem cansa. Foi, como alguém comentou ao meu lado, “o mais puro creme”. A banda de Juninho Sangiorgio (Ratos de Porão) encheu a Fabrique de referências zappianas e experimentações que soavam, ao mesmo tempo, familiares e surpreendentes. Antes do show, a imagem de Hermeto Pascoal — que nos deixou na noite anterior — estampava o telão e lembrava a todos a fonte de inspiração, clara em cada virada e improviso. Era uma homenagem e também uma celebração, com técnica de sobra, mas sem um pingo de pedância.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Já a Violeta de Outono trouxe aquele pós-punk oitentista que continua ressoando entre gerações. Foi um show delicioso, que misturou nostalgia com a dose certa de virtuosismo, arrancando sorrisos e olhares emocionados de muitos senhores que se aproximaram do palco para rever uma de suas bandas de formação. O set passou por clássicos e terminou de forma arrebatadora com um cover impecável de “Tomorrow Never Knows”, dos Beatles, que deixou a sensação de termos presenciado um momento especial.

Mas ainda havia no ar uma expectativa crescente: a chegada da “banda mais barulhenta de Nova Iorque”. A cada intervalo, a tensão se acumulava — era como se todos na Fabrique soubessem que estávamos prestes a atravessar uma fronteira sonora. E quando as luzes baixaram para a entrada da A Place to Bury Strangers, ficou claro que a noite ainda guardava sua catarse final.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

O que se seguiu não foi um mero show. Foi um soterramento coletivo sob infinitas camadas de ruído, distorção e luzes. A bateria não marcava o tempo: atropelava-o — e a gente junto. Cada patada da baterista Sandra Fedowitz no bumbo fazia meus joelhos tremerem. Ela sorria sem parar, dentes brancos à mostra, na mais pura alegria. A cada música, a sensação era de estar sendo arrastado por uma torrente sonora que não dava trégua. Eu, colado ao palco com minha câmera em mãos, sentia meu corpo inteiro vibrar.

A primeira guitarra virou frangalhos logo nos primeiros minutos, para o êxtase do público. Logo, a banda desceu até o meio da plateia. Primeiro foi Oliver Ackermann, responsável por carregar o nome da banda há mais de vinte anos, seguido por Fedowitz. Por alguns instantes, apenas o baixista John Fedowitz permaneceu no palco, observando em silêncio enquanto sua esposa martelava os tambores e Ackermann se debatia no meio da roda que se formou na pista. Logo ele também se juntou aos dois, deixando o palco vazio. Não havia mais distinção entre público e banda: era tudo uma unidade sonora e espiritual, todos engolidos pelo som.

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(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Na mão de Ackermann, tudo virava acessório e tudo virava objeto de palco. Sem cerimônia, ele apontava a máquina de fumaça para onde queria, girava uma lâmpada estroboscópica no ar e a reposicionava onde bem entendesse — ora acoplada à guitarra, ora à bateria. Ao final do show, arrancou as últimas notas de uma Jazzmaster literalmente pela metade. A sensação era de ter levado uma surra. Ninguém terminou aquela noite da mesma maneira que entrou.

Num evento em que havia tantos nomes conhecidos do jornalismo musical brasileiro, a curadoria provou mais uma vez sua força: poucos conseguem reunir uma noite de sons tão diversos e, ao mesmo tempo, tão necessários. Para quem viu todas as bandas, ficou claro também o fio sonoro que amarrava cada apresentação — e não era só o bom gosto do Reverendo. Fica aqui o registro de um aniversário inesquecível e os parabéns ao Massari, que segue firme como maestro desse caos organizado — e que venham muitos outros.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.