eliminadorzinho – eternamente, (2025)

eliminadorzinho – eternamente, (2025)

(Reprodução)

Quando eu era adolescente, fui o vocalista de uma banda que durou pouco mais de dois ensaios chamada The Krebs. Tipo o Ciclo de Krebs que a gente aprende nas aulas de Biologia no Ensino Médio. As referências eram Sonic Youth, Dinosaur Jr., Fugazi e outras barulheiras noventistas que nós ouvíamos na época. Claro que era uma merda gigantesca, e nossos covers de Sonic Youth soavam mais como um Nirvana meia-boca. Quase trinta anos depois (sim, sou velho), ouço eternamente, e penso que esse era exatamente o som que a gente gostaria de ter feito — mas falhou miseravelmente por inúmeros motivos.

Lançado pelo selo independente Cavaca Records, eternamente, (essa vírgula irrita mais o corretor de texto do que a mim) é o segundo álbum completo dos paulistanos da eliminadorzinho. O trio formado por Gabri Eliott (voz e guitarra), João Haddad (voz e baixo) e Tiago Schützer (voz e bateria) parece beber das mesmas influências que o jovem Alexandre e entrega um álbum coeso, vivo e extremamente interessante. Desde a primeira faixa, o ágil instrumental “Tema do Centro da Terra”, seguido de “A cidade é uma selva”, o espírito é o mesmo daquelas bandas que pegavam o punk e o espírito DIY para transformar barulho em algo maior.

Certos elementos — como o baixo sempre beirando a distorção à Kim Gordon, o pick scrape e o som chapado da bateria — poderiam soar clichê ou forçados, mas são usados de forma tão coerente que fazem sentido dentro das canções. Às vezes soam como uma Ringo Deathstarr menos pretensiosa, ou como os Smashing Pumpkins da fase Gish. Ainda assim, há uma verve pop que mantém as faixas frescas, mais evidente em músicas como “Vaivém” e “Chap Chap Chuap Pop”, além dos refrões absurdamente chicletosos que grudam na memória já na primeira audição.

É nesse equilíbrio entre barulho e melodia que eternamente, encontra sua força: não é só uma colagem de referências noventistas, mas uma tradução muito própria do trio. O disco soa urgente, como se tivesse sido gravado num único fôlego. É cru, sim, mas nunca desleixado — há um cuidado evidente na construção dos arranjos e no espaço que cada instrumento ocupa. O resultado é um álbum que conversa tanto com o adolescente que queria fazer barulho na garagem quanto com o adulto que ainda procura discos capazes de fazê-lo bater a cabeça.

As letras são carregadas de ironia e essencialmente urbanas. Talvez seja isso que transforma a experiência auditiva em algo contemplativo, mesmo ao som dos riffs excelentes de “Uma hora você tem que tirar a roupa do varal” ou da parede de som de “Sopa e Café”. São versos que registram pequenos absurdos e situações banais com a mesma intensidade que os amplificadores despejam distorção, criando um retrato ácido e divertido da vida na cidade.

Mais do que nostalgia, a eliminadorzinho me pegou porque mostra que aquele som que eu e tantos adolescentes do fim dos anos 90 tentamos emular ainda tem lugar hoje — e pode ser feito com personalidade. eternamente, é um disco que dá vontade de pegar a minha antiga Stratocaster coreana, torar a distorção e voltar a acreditar que três pessoas numa sala ensaiando podem chacoalhar o mundo, nem que seja o nosso mundo particular.

7.8

eternamente, – Eliminadorzinho

Gravadora: Cavaca Records

Essencialmente noventista na alma, mas com uma vitalidade que o torna imediato, pulsante e absolutamente contemporâneo. E jovem.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.