Realmente aguardado pelos fãs e pela mídia especializada, finalmente chegou: “Deadbeat” é o novo álbum dos australianos do Tame Impala, o primeiro full-length pós-pandemia. Nesse tempo, Kevin Parker esteve bastante atuante em outros projetos, produzindo, lançando colaborações e assinando trilhas sonoras interessantes. Viajando. Fazendo shows com Dua Lipa e produzindo com ela. Lançando uma música para o filme da Barbie. Um homem de sucesso e muito ocupado.
E, sendo bem sincero: sempre que aparece um novo trabalho do Tame Impala, pensamos que teremos um novo Currents. E este, de longe, mas de longe mesmo, é o trabalho mais oposto ao icônico álbum possível.
Contudo, Deadbeat se mostra o mais denso, heterogêneo e maduro entre os trabalhos anteriores. Comecemos pela capa, que traz uma foto muito fofa de Kevin com sua filha. A menina sequer estava na barriga da mãe durante o lançamento de “The Slow Rush“.
Outro ponto é o próprio nome do álbum: deadbeat, em inglês, pode ser traduzido como “pai ausente” ou “pai irresponsável”. Isso contrasta com a imagem da capa, registrada a partir de uma cena do clipe “End of Summer”. Desânimo? Cansaço? Reflexão? Esgotamento Emocional? Como um feixe de luz que incide em um prisma e se divide em diversas cores, o disco permite uma bela metáfora sobre o que ecoa através dos sentimentos.
E o álbum está longe de ser ruim. Não há como dizer que o multi-instrumentista Kevin Parker é ruim: ele continua sendo uma das pessoas mais criativas de sua geração. Os singles “Dracula” e “End of Summer” já haviam se mostrado grandes acertos, e faixas como “Not My World” (majoritariamente instrumental), “Piece of Heaven” e a sugestiva “See You on Monday (You’re Lost)” confirmam o fôlego criativo.
A psicodelia continua, porém transmutada em uma evolução pessoal marcada pelas visíveis mudanças de vida. Quando vi Kevin em 2023, no Lolla Buenos Aires (saudades do peso barato), vi um homem de pé quebrado, feliz por estar no palco, mas com um ar preocupado e obstinado com o próprio futuro. E, bom, o futuro chegou. E parece um tanto quanto confuso. Mas também é tão honesto e genuíno que chega a doer.
Como ponto negativo, em faixas como “Loser” e “Obsolete”, há interrupções de voz com suspiros e exclamações no microfone (algo meio too much), se é que me entendem.
Em suma, este é o tipo de trabalho difícil de catalogar ou avaliar com uma simples nota. Talvez entre nos destaques do ano. Ou não. Tudo depende de como você está quando o escuta. Afinal, se o dia está ensolarado, levemente quente e você está com vontade de viver, o disco pode soar depressivamente psicodélico. Mas, se o dia está nublado e você não está bem, talvez soe como uma obra-prima. E isso, ao meu ver, é o que diferencia um bom álbum de algo extraordinário é quase impossível de rotular.
Se às vezes é confuso, também é dolorosamente honesto e genuino. Você termina a audição com aquela dor de barriga e olhando pro além, não é algo feliz, mas também não é algo que possa ser evitado.
Deadbeat – Tame Impala
Gravadora: Columbia Records
Tame Impala (Kevin Parker) retorna com “Deadbeat”, um disco denso, humano e introspectivo sobre maturidade, paternidade e esgotamento emocional.
