The Last Dinner Party – From The Pyre (2025)

The Last Dinner Party – From The Pyre (2025)

(Reprodução)

Costuma-se dizer que o fogo purifica — mas às vezes ele só revela o que já estava ali, escondido sob o verniz.

Não é segredo que o álbum de estreia da The Last Dinner Party, Prelude to Ecstasy, foi um dos meus lançamentos favoritos do ano passado. Porém — e aqui está o problema que norteia este texto — ele também é certinho por demais, limpo demais e às vezes até meio careta. Cada arranjo polido, cada coral orquestrado, cada guinada dramática apoiada por produção impecável. A virtude da ambição estava ali, mas talvez o ímpeto de “fazer bonito” tenha apagado parte do risco, da imperfeição que a arte — e o rock — pede. Foi como um jantar de gala onde o prato principal era servido numa porcelana imaculada — excelente, mas ao final não havia manchas de batom no guardanapo. Tudo era elegante e barroco ao extremo, como os figurinos da banda, mas talvez até um pouco frio, distante do conteúdo das letras do quinteto e de suas apresentações.

Agora, com From the Pyre, a banda mudou de produção. Saiu James Ford (que também produziu o ótimo More, do Pulp) e entrou Markus Dravs, com o também lendário produtor Alan Moulder retornando na mixagem. A mudança na produção e no tom da banda é sentida desde a primeira batida de “Agnus Dei”, que abre o álbum. O título por si só remete a abandono, combustão, metamorfose.

A pira, afinal, é um ritual de purificação — mas ninguém sai dela ileso, e talvez o segredo esteja justamente nisso. From the Pyre não tenta apagar o brilho barroco do primeiro disco, só o submete ao fogo. O resultado é uma banda que parece ter passado pelas chamas e voltado um pouco mais ela mesma.

“Second Best”, terceira faixa, condensa bem essa virada. Ela tem tudo o que a The Last Dinner Party sempre entregou: corais exuberantes, letras de teor intrinsecamente feminino e um riff poderoso. Mas aqui a banda soa nitidamente mais dentro da própria pele. O baixo está na cara da mixagem, com um timbre mais sujo, sem medo de ocupar espaço. A guitarra (pisa em mim, Emily Roberts) está ágil, cortante, voraz — com um peso e um calor que faltavam em Prelude to Ecstasy. Em “Sinner” havia uma raiva contida; aqui, a raiva pulsa em ironias tão vorazes quanto os agudos da vocalista Abigail Roberts.

Há algo de libertador especificamente nessa faixa: como se, em vez de se limparem das impurezas, elas tivessem decidido manter a fuligem, o cheiro de fumaça, o que sobra depois do fogo.

Tudo aquilo que havíamos amado em Prelude está de volta. As vozes afinadíssimas em coro, os temas bíblicos, guitarras e teclados preenchendo cada espaço, os double entendres… Tudo está ali, mas em Pyre, é muito mais do que isso. É como se a banda tivesse aprendido a abraçar o próprio caos — a sujeira que antes era escondida debaixo da toalha de linho egípcio branco. Não tem problema se ela agora está com algumas manchas de vinho tinto. O fogo purifica, sim, mas também deixa marcas — e é nessas marcas que a The Last Dinner Party encontra sua força.

8.9

From The Pyre – The Last Dinner Party

Gravadora: Universal Music

Das cinzas, a The Last Dinner Party renasce suja, viva e humana, demasiado humana.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.