Ludovic no Desgosto Bar. Sexta-feira chuvosa, Centro de Florianópolis, expectativa gigante em um bar que eu, pessoalmente, não conhecia. Apesar de inúmeras bandas, inúmeros shows, eu, por algum motivo ou outro, ainda não tinha ido a um dos bares mais legais da cidade.
A correria da cidade, o trabalho, os problemas — tudo servia para eu dar alguma desculpa para não ir.
Menos o Ludovic.
Não sei se fazem uns 15 anos ou mais, talvez menos, do primeiro e único show da banda que assisti em um extinto bar da Felipe Schmidt, local que não existe mais. Era ali no final da rua, onde hoje existe um arranha-céu e um pequeno complexo de lojas.
Histórias à parte, o Desgosto é literalmente desgarrado do Centro Leste. Numa subida íngreme na Rua Padre Roma. E querem saber? A rua tem nome de Padre, mas exala o melhor que a cena independente tem a apresentar. Um bar escuro, com uma iluminação rubra e um letreiro de cinema no fundo do palco.
Preços de bebidas: ok. Atendimento ótimo. E uma banda senhora absoluta do palco. Depois de sei lá quantos anos, o quarteto estava de volta a Florianópolis. (Disseram que a banda tocou no ano passado em Florianópolis, mas como eu não lembro, não sei se é verdade. Será?).
Eram pouco mais de 21h, e uma tendência que vem se espalhando país afora vem se consolidando: shows começando mais cedo — e, por tabela, pessoas que têm que trabalhar aos sábados (eu!) agradecem!
Com base nos seus dois discos e single lançados respectivamente em 2004 (Servil), 2006 (Idioma Morto) e 2017 (Inexorcizável (Um Zumbido Ensurdecedor)), o quarteto não deu trégua a um bar que ia enchendo conforme a chuva dava uma pequena trégua.
Com Atrofiando, Desova e Nós, os Milionários, o Ludovic foi numa crescente, entrando noite adentro com outros petardos.
No meio do show, Jair Naves parou para soltar uma mensagem aos presentes. O mais interessante de se notar é que, na verdade, era um recado para os jovens, que, em sua grande maioria, se faziam presentes no local: “Tentem, convidem os amigos, colegas, aprendam e, se assim quiserem, montem uma banda.”
Talvez, para a grande maioria dos presentes, isso fizesse muito sentido — principalmente em um momento de ebulição de lugares para tocar e dezenas de bandas locais alcançando espaço onde outras nunca chegaram nas últimas décadas.
O show continuava, com uma interação cada vez maior do público, que, ensandecidamente, fazia rodas de pogo e colocava todo o espaço em polvorosa, causando derrubadas de copos de chope, empolgação, alegria e insanidade.
Vane (do primeiro disco) causou uma temporária acalmada, mas a insanidade continuou com faixa atrás de faixa, numa hecatombe musical.
O show seguiu intercalando momentos de descontração, como: “Vamos ligar a TV para saber quem matou Odete Roitman”, e “Essa conversa parece de coach”.
Jair e o restante da banda (Eduardo Praça, ex-Quarto Negro e atualmente em carreira solo como Apeles; Ezequiel “Zeek” Underwood; e Rodrigo Montorso) envelheceram, mas souberam chegar aos 25 anos de estrada guardando o seu lugar de importância dentro do cenário independente.
Os hits do show estavam debruçados nas bocas da jovem plateia: Boas Sementes, Um Grande Nó, Eu Fiz Pouco Caso, Teoria, Servil, Janeiro, Nas Suas Palavras, Trégua, Corpo Santo, CVV e Você Sempre.
Como é bom se sentir o cara mais velho do bar e ver uma plateia com a metade da idade da banda — e deste que vos escreve.
Sinergia lá em cima, de um show que poderia ter durado mais e que, desde o fim, deixa a incógnita no ar: quando eles voltam?
AGRADECIMENTOS:
Ao Desgosto Bar, pela parceria e especialmente pelo atendimento dos funcionários!



