Ty Segall sempre foi um cara inquieto. Depois de mais de uma década explorando riffs entre o garage, o glam e o psicodélico, Possession surge como um ponto de equilíbrio raro: um disco que olha o passado sem se perder na nostalgia. O californiano encara os anos 70 — e a si mesmo — com o mesmo olhar curioso de uma criança que desmonta um telefone.
A produção é expansiva: cordas, sopros, arranjos que poderiam soar grandiosos demais em outras mãos, mas aqui soam imperfeitos e humanos. Há uma certa doçura no meio dos acordes dissonntes, algo que aproxima Possession do folk maduro da Wilco — especialmente naquele diálogo entre delicadeza e distorção que Jeff Tweedy transformou em arte. Em “Shoplifter”, por exemplo, Segall narra o roubo do ponto de vista de uma pessoa cleptomaníaca como metáfora de sobrevivência. Carregada de cordas e harmonias sutis, a faixa começa com doçura e termina em catarse — um solo de saxofone e um coro a capella que soam como libertação.
A força do álbum está nessa tensão: ele continua garageiro e barulento, mas há algo mais — uma vontade de construir algo. O fuzz ainda está lá, só que agora dividido com pianos, violinos e momentos introspectivos, como se Segall estivesse tentando reescrever o novo cânone do rock americano.
Possession é um álbum maduro de um artista que se recusa a perder sua identidade. Um músico que continua curioso, testando limites, mas que agora parece mais confortável em sua própria pele. Ty Segall aprendeu a tocar piano — mas também aprendeu a limpar as mãos antes de tocá-lo.
Possession – Ty Segall
Gravadora: Drag City Inc.
Possession é fruto de quem entendeu que a intensidade pode vir de outras fontes além do volume e da distorção.
