O Agente Secreto e a maneira de Kleber Mendonça Filho de trazer a ditatura sob o prisma nordestino

O Agente Secreto e a maneira de Kleber Mendonça Filho de trazer a ditatura sob o prisma nordestino

(Reprodução)

Realmente ainda me custa entender como consegui, com certa facilidade, dois ingressos para a pré-estreia do filme O Agente Secreto em Florianópolis. Até porque, quando cheguei ao shopping Villa Romana, no dia 25 de outubro, havia uma fila como poucas vezes se viu por ali. Vai entender. A questão é que fui um dos privilegiados a assistir, na primeira sessão aberta ao público, o novo longa de Kleber Mendonça Filho, tão comentado e aguardado (estreia nacionalmente no dia 6 de novembro). E, bom, a primeira sensação que tive foi a de que o diretor nos presenteou com sua obra mais estilizada e pessoal até agora.

Logo de cara, a proposta inicial remete a um clima tarantinesco, alimentado por humor ácido e diálogos soltos, naquele pique de curiosidade, com personagens que trocam farpas, flanam e parecem saber mais do que dizem, sabe? Mas, como não poderia ser diferente, logo a marca inconfundível de Mendonça Filho entra em cena.

Sim: a cidade como personagem, o passado que corrói o presente, uma tensão longa e subterrânea que nunca se resolve de forma simples. E o resultado é um longa bom. Mas bom mesmo.

Caso você não saiba, o filme se passa no Brasil de 1977, em plena Ditadura Militar, sob a ótica de um Recife denso, enigmático e politicamente carregado. Em Pernambuco. No Nordeste. Ou no Norte, como um dos personagens do Sudeste divide o Brasil em duas macrofatias. E, bom, se você não quer alguns spoilers necessários, talvez seja melhor parar por aqui.

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O filme tem como protagonista Marcelo (Wagner Moura), um professor universitário que retorna à sua cidade natal após um período em São Paulo, em busca de um recomeço. Mas sua paz (ou ao menos a tentativa), vai se desfazendo aos poucos, à medida que a cidade se revela envolta em vigilância, conspiração e corrupção.

A narrativa se aprofunda cada vez mais em espionagem, suspense e politicagem, num roteiro bem construído, embora ligeiramente incompleto em sua conclusão. Mas chegaremos lá.

Se em Bacurau (2019) Kleber mergulhava em elementos antropofágicos para retratar a resistência do povo nordestino, em O Agente Secreto ele cria camadas que expõem o sofrimento sob a ditadura militar, agora sob o prisma de Pernambuco e da sua capital. Tudo é mais voltado ao mistério e à sinestesia da perseguição, em que o exército dá lugar a uma segurança pública descaçada e descaradamente corrupta.

O início, como mencionei, tem aquele sabor de Tarantino: diálogos ágeis, personagens marcantes. Mas o filme logo se aprofunda, e o ritmo muda. Há uma sobreposição de camadas: conhecemos personagens que ficam à margem, que vão e talvez não voltem, numa cidade que se fecha sobre si mesma.

Para quem acompanha a filmografia do diretor, o que se vê no seu quinto longa é uma evolução natural: uma estética rica aplicada a um gênero ainda pouco explorado no cinema brasileiro. Podemos categorizar o filme como um thriller de espionagem? Presumo que sim.

Dois pontos me chamaram atenção: o primeiro é o contraste entre o festivo (Carnaval) e o ameaçador (vigilância, perseguição, sombra), construído com precisão cirúrgica. A atuação de Wagner Moura sustenta bem o personagem, sendo alguém à espreita de si mesmo, tentando retomar o controle, mas tropeçando em fantasmas e urgências. Nesse ímpeto, a cena em que ele sai do cinema São Luiz totalmente arrasado, após descobrir que estava sendo vigiado e procurado para ser morto junto com o filho, e logo se vê tragado por uma comemoração de carnaval de rua, é de arrepiar. Uma das melhores do filme, seja pela crueza, pela leveza ou pela direção de câmera.

Começar

O segundo ponto é que o filme parece um ponto de convergência na vida e obra do diretor. Ele mistura a nostalgia e a cinefilia de Retratos Fantasmas (2023) com a consciência social de Bacurau (2019) e Aquarius (2016). A representação dos cinemas e, principalmente, a reconstituição de um Recife de 1977 se sustentam num resgate de memória que o cineasta vem desenvolvendo desde sempre: arquitetura, lembranças e, por que não, o cinema como vetor cultural. É aquele olhar para o passado, mas com o olhar do presente. O sogro de Marcelo, por exemplo, trabalhava no São Luiz. Há também o caso do matador nordestino, uma espécie de “rambo” do interior pernambucano, que faz o serviço por quatro, enquanto em São Paulo a dupla contratada cobrava sessenta. Uma cena que, além de ilustrar a exploração, revela também a astúcia e a eficiência de um cabra arretado. (Eu avisei que haveria spoilers). Ele é o Vilmar, interpretado pelo Kaiony Venâncio.
Aliás, os coadjuvantes que o filme comporta são incríveis e a lista é longa, mas destaco, como não poderia ser diferente, a intrépida Tânia Maria, que interpreta Sebastiana; a Alice Carvalho, como Fátima, mulher do “Marcelo” e que tem um monólogo intenso e maravilhoso e Udo Kier, que interpreta Hans, um judeu-alemão bem-intencionado com quem merece.

Agora, se há alguma tensão que o filme não resolve completamente, talvez seja o ritmo. Com cerca de 158 minutos de duração, o longa exige paciência (e há momentos em que ela será testada). Quem for esperando ação pode se frustrar, mas acredito que também se surpreenderá com a forma de contar a história: silêncios incômodos, planos longos, humor negro e ácido. E afinal, quem mais poderia contar a história da perna cabeluda?

No fim, O Agente Secreto acerta em cheio a proposta de ser, ao mesmo tempo, entretenimento e reflexão. Pelo lado reflexivo, trata de como a ditadura foi vivida no Nordeste, do poder econômico e da necessidade de a pesquisa e o ensino federal seguirem o padrão do eixo Rio-São Paulo. Pelo lado do entretenimento, é cinema. Cinema bom. E que termina sem um final feliz. Às vezes, a vida é assim mesmo.

Frederico Di Lullo

Frederico Di Lullo

Redator publicitário, letrólogo, jornalista & fotógrafo de shows, nasceu na Argentina, coleciona vinil, é fã incondicional de música e um exímio apreciador de artes degeneradas.