Zagüaraz – Talentos Inúteis EP (2025)

Zagüaraz – Talentos Inúteis EP (2025)

(Reprodução)

petardo
substantivo masculino

  1. Artefato explosivo, geralmente de pequeno porte, utilizado para produzir estrondo ou efeito luminoso; foguete, rojão.
  2. Explosão forte ou estouro causado por esse tipo de artefato.
  3. (Figurado, informal) Comentário, crítica ou ação de impacto súbito; bordoada, paulada verbal.

A primeira vez que eu lembro de ter lido a palavra “petardo” foi numa resenha do nosso excelentíssimo editor-chefe, Luciano Vítor, o Carioca, sobre o primeiro álbum da Disaster Cities, Lowa. Anos depois, ouvindo Talentos Inúteis, o primeiro EP da dupla Zagüaraz, formada por dois ex-integrantes da supracitada banda, não consigo deixar de pensar novamente na mesma palavra: petardo.

A palavra parece a metáfora perfeita para significar estas seis faixas. Primeiro, é uma literal bordoada na orelha. Guitarra e bateria vêm com um peso surreal desde a primeira faixa. Os riffs são muito — mas muito — bem construídos. Os grooves da bateria preenchem todo o espaço com violência. Os vocais de Rafael Panegalli caminham no fio da navalha entre a sutileza e o grito, sempre mantendo a afinação e a emoção. Todas as canções parecem prontas para explodir, como se estivéssemos observando o pavio do tal petardo sumindo em meio às faíscas.

Mas é justamente aí onde reside a maior virtude da Zagüaraz: não é simplesmente peso pelo peso — é tudo milimetricamente calculado pra desabar nos seus ouvidos numa retumbante avalanche sonora.

Segundo, as letras são realmente boas. Literais pauladas verbais. É muito difícil falar sobre certos temas sem parecer um palestrinha mala. Versos como “Meu sangue é igual ao seu / Meu tempo não é igual ao seu” e “CEOs de si mesmos / Empreendedores de nada” têm uma acidez e, ao mesmo tempo, uma sensibilidade ímpar de quem observa inquietamente este tempo esquisito do cacete que estamos vivendo.

Além de um belíssimo prenúncio do que ainda há por vir, Talentos Inúteis é a prova de que dá pra fazer música pesada com mais cérebro que vísceras. Se este é o cartão de visitas da Zagüaraz, então é melhor prepararem os ouvidos: o próximo petardo já deve estar com o pavio aceso.

9.7

Talentos Inúteis – Zagüaraz

Gravadora: Forever Vacation Records

Se isto é o começo de alguma coisa, eu estou ansioso pelo que está por vir.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.