Baco Exu do Blues – Hasos (2025)

Baco Exu do Blues – Hasos (2025)

(Reprodução)

Confesso que entrei em Hasos com um pé atrás. Sou fã de Baco (o que nos falam sobre não se envolver com o som do artista ou criar um laço afetivo, enquanto crítico?), desde que descobri e comprei o vinil de Bluesman (lançado em 2018).

Hasos é, inicialmente, um convite a uma fusão deliciosa de jazz com rap. E até a terceira faixa (a primeira é uma gravação de um diálogo para remeter a um filme, mas não vamos descartar).

A problemática começa na quarta faixa e vai seguindo adiante.

Ninguém é obrigado a nada, em lugar nenhum, nem na arte. Mas a falta de filtro, às vezes, é um chicote dentro do próprio trabalho.

“Romance Latino” é um claro exemplo disso.

Destoa das faixas anteriores (segunda e terceira, ok, sem problema), mas usa uma frase que remete ao rapper 50 Cent. Muito famoso por vários discos e filmes, foi a partir do filme Fique Rico ou Morra Tentando, estrelado pelo próprio rapper, que começa a derrocada artística do norte-americano. Mas, quando uma frase dentro de uma canção soa como uma referência a 50 Cent, ok, vamos parar por aí, porque temos problemas.

A frase é: “Fique rico antes de se apaixonar…” e segue uma toada de batidas dançantes e tentativas de transformar a letra em algo profundo, ou bem raso, como é o caso.

Como você, um cantor, rapper, ciente de sua grandiosidade dentro do cenário da música brasileira, faz uma referência (mesmo que: ok, não foi a intenção!) com uma frase que remete a um rapper negro, que sofreu racismo, mas parece não se importar e apoia um dos piores políticos da história norte-americana?

Rap é compromisso, é combate ao racismo, é luta. Não dava para mudar a frase e evitar essa “pegadinha”?

Ok, vamos lá.

Baco falou em alguns veículos sobre o disco, que o mesmo teria várias ambiências, etc.

Outro problema é a autorreferência em várias músicas. “Garçom da Ausência” é parecida com “Girassóis de Van Gogh” (2018).

Ou o enaltecer a própria pessoa, em “Fugindo do Espelho”. Bacana, mas parece que as obras musicais precisam reafirmar que o rapper é um dos melhores da atualidade, mas, em todo o trabalho, precisa de quase uma enaltecida própria para fazer sentido enquanto músico.

“Deu Meia-Noite” é uma retomada ao que Baco nos mostra de melhor: trazer um ponto conhecido da Umbanda com uma letra que rasga a alma.

Mas o que segue não traz um disco acima da média. Pelo contrário. São mais dez faixas que ora encontram a luz, ora encontram o lugar-comum, para ficarmos no mínimo.

Baco, não queremos um gênio, não queremos um herói; queremos uma coerência, que, infelizmente, Hasos não encontrou, apesar de tentar alcançar a grandiloquência.

Mesmo citando Caymmi, mesmo usando interlúdios e diversos ritmos em 18 faixas, o novo trabalho é errante, como uma alma perdida sem saber o que dizer em quase 50 minutos.

Tem boas faixas, faixas nem tão boas assim, mas parar de olhar para si próprio quase o tempo todo faria bem.

5.9

HASOS – BACO EXU DO BLUES

Gravadora: Sony Music

Outrora um grandioso artista, Baco tentou alcançar o Sol, assim como Ícaro…

Luciano Vitor

Luciano Vitor

Formado em Direito, frequentador de shows de bandas e artistas independentes, colaborou em diversos veículos, como Dynamite, Laboratório Pop, Revista Decibélica, Jornal Notícias do Dia, entre outros. Botafoguense moderado, é carioca radicado em Florianópolis há mais de 20 anos.