Após uma breve temporada nos cinemas brasileiros, A Vida de Chuck já está disponível para aluguel em alguns serviços de streaming. O pouco tempo de exibição é mais um reflexo do fraco apelo que produções desvinculadas de alguma propriedade intelectual exercem sobre o público em geral. Uma pena, porque o filme dirigido por Mike Flanagan recebeu ótimas críticas por onde foi exibido e chegou a ser premiado pelo júri popular no festival de Toronto do ano passado.
Estrelada por Tom Hiddleston e Chiwetel Ejiofor, a produção é uma as raras adaptações de Stephen King que não se enquadra no gênero horror. E, curiosamente, são justamente essas adaptações as mais celebradas pela crítica em geral. Basta lembrarmos de filmes como Conta Comigo, Um Sonho de Liberdade e À Espera de um Milagre, todos muito bem recebidos pelos críticos e indicados a diversos prêmios nas épocas de seus lançamentos.
Embora em A Vida de Chuck o horror seja deixado de lado, alguns elementos fantásticos e sobrenaturais bastante recorrentes na obra de King ainda dão o tom de certas passagens relevantes. A começar pelo início, um extenso prólogo no qual somos apresentados a um mundo que, se considerarmos os acontecimentos vivenciados pelos personagens, caminha para seu fim. É nesse contexto que acompanhamos a angústia e o desalento de pessoas comuns, habitantes de uma pequena cidade do estado americano do Maine, e que são forçadas a lidar com a proximidade do apocalipse. Em paralelo, uma parte dos moradores parece mobilizada para celebrar o trigésimo nono aniversário de Chuck, um sujeito aparentemente sem nada de especial, mas cuja imagem se torna cada vez mais familiar, à medida que o fim do mundo emerge como único destino possível.
A estranha premissa compõe a parte inicial e mais provocativa do filme de Flanagan, ganhando a atenção do espectador e contribuindo para sua completa imersão na história, que segue tomando rumos inesperados e apostando em um desenlace que se revela emotivo e reflexivo. Em que pese a divisão de capítulos eventualmente contribuir para uma certa irregularidade no ritmo do filme, a forte presença de Tom Hiddleston – mesmo que em um papel relativamente pequeno – e a progressiva entrada em cena de ótimos atores tornam a experiência uma das mais agradáveis do ano até agora. Mérito também do diretor, que tem se revelado um realizador bastante talentoso e com ótima verve dramática, qualidade que já podia ser notada em suas inúmeras produções de terror para a Netflix.
Não é por acaso que o já normalmente excelente Jacob Tremblay – de O Quarto de Jack e Extraordinário – apresenta aqui um de seus melhores trabalhos, vivendo um jovem Chuck cheio de carisma, complexidade e, ao mesmo tempo, leveza. Uma interpretação tão impactante que quase ofusca o restante do elenco, do qual fazem parte os também competentes Mark Hamill, Kate Siegel e uma rediviva Mia Sara, estrela do clássico Curtindo a vida adoidado e que em A Vida de Chuck tem o melhor momento de sua carreira. Todos devidamente conduzidos por um Mike Flanagan atento às questões mais sensíveis trazidas pelo roteiro, sem descuidar de uma eficiente exploração da ambientação criada por sua equipe de direção de arte e responsável pela necessária dose de verossimilhança que uma história desse tipo requer.
Lidando com temas sempre muito caros a todos nós, mas apenas ocasionalmente abordados com profundidade pelo cinema, Flanagan nos convida a especular sobre as escolhas que fazemos em nossas vidas, a maneira como impactamos as pessoas mais próximas e, claro, sobre como iremos nos comportar quando o fim chegar, especialmente quando nos damos conta da inevitabilidade da morte.
Muito embora resvalando no didatismo, os diálogos e as situações criadas no filme são emocionantes o suficiente para que nos envolvamos na jornada dos personagens até o epílogo relativamente surpreendente, reflexivo e – quem diria? – pontuado por uma otimismo agridoce muito bem-vindo nos tempos atuais.



