A influência de Stranger Things na cultura pop, no boom da nostalgia dos anos 80 e no impacto das produções originais da Netflix.
Quando a primeira temporada de Stranger Things estreou, em julho de 2016, a palavra Netflix já era sinônimo de serviço de streaming. Especialmente no Brasil, onde não enfrentava concorrentes relevantes e atuava desde 2012, a plataforma angariava cada vez mais assinantes e conquistava um espaço importante no cotidiano das famílias, que aos poucos abandonavam o hábito de zapear pelos canais de TV a cabo e buscavam outras opções de serviços para assistir a filmes ou acompanhar séries de diversos estilos.
Nessa época, as produções originais da Netflix eram escassas e representadas por títulos bem recepcionados pela crítica e pelo público, House of Cards e Orange Is the New Black. Ambas concorreram a prêmios e serviram para consolidar a marca da plataforma não apenas como um ambiente de compartilhamento de filmes e séries de diversos estúdios, mas também como uma espécie de “nova HBO”, que já se firmara há algumas décadas como uma marca de qualidade no que diz respeito a séries e filmes produzidos para a TV a cabo.
Entretanto, nem a série estrelada por Kevin Spacey e nem a produção capitaneada por Taylor Schilling foram capazes de mobilizar tantos espectadores e capturar o zeitgeist de uma época como Stranger Things. A criação dos até então desconhecidos Duffer Brothers trouxe terror, sci-fi e aventura embalados em uma trama simples e cativante, protagonizada por um elenco de adolescentes carismáticos e, claro ambientada nos anos 80. E obviamente que não tratava de quaisquer anos 80, mas sim daqueles familiares a qualquer um que frequentou as salas de cinema daquela década, e que cresceu assistindo a produções como E.T., Goonies, Os Caça-Fantasmas, A História Sem Fim e tantos outros filmes que fizeram parte do melhor período de produções para adolescentes da história do cinema americano.
Curioso lembrar que, até então, a nostalgia oitentista emergia como uma estratégia ocasional adotada por produtores que miravam nas lembranças afetivas de um potencial e mais amadurecido público consumidor, mas alcançavam pouca ou nenhuma relevância. Séries e filmes que continuassem, ou que fossem inspiradas por grandes sucessos dos anos 80, assim como tentativas de revival de marcas de sucesso daquela época normalmente se tornavam grandes fracassos comerciais ou simplesmente passavam à margem do interesse do grande público. Basta lembrar dos casos de Miami Vice, fracassada adaptação para o cinema lançada em 2006, e de V, o pífio remake da cultuadíssima minissérie sci-fi, que durou apenas duas temporadas e logo foi esquecido.
Com Stranger Things tudo foi diferente, e a primeira temporada, que chegou sem alarde na Netflix, logo se tornou o maior sucesso da plataforma. A série não apenas formou um público cativo, como transformou em astros os atores de seu jovem elenco – especialmente a inglesa Millie Bobby Brown, que estrelou outras produções de sucesso da casa -, reavivou a carreira de Winona Ryder e, claro, se tornou um fenômeno pop responsável pelo desenvolvimento de inúmeros filmes e séries que tentariam, a partir de então, surfar na grande onda nostálgica que se formava. Não à toa, projetos como a nova adaptação de It – A Coisa, a sequência de Os Caça-Fantasmas e a série Cobra Kai foram beber na fonte do sucesso de Stranger Things, apostando ora na ambientação oitentista, ora nas referências explícitas ou implícitas aos adorados filmes e séries do período. Aliás, não é coincidência que as duas primeiras produções sejam estreladas por Finn Wolfhard, que interpreta o personagem Mike no sucesso da Netflix.
Como não poderia deixar de ser, novas temporadas se seguiram à primeira, com os roteiristas quase sempre apostando na nostalgia oitentista para capturar a atenção do público e manter vivo o interesse pela série. Assim, fomos presenteados com participações especialíssimas, com as de Sean Astin (segunda temporada) e de Robert Englund (quarta temporada). Em paralelo, o público testemunhou o nascimento de uma verdadeira franquia de produtos relacionados à marca Stranger Things, abrangendo histórias em quadrinhos, jogos de tabuleiro, camisetas, canecas e colecionáveis em geral. O ápice do sucesso ocorreu em plena pandemia, com a veiculação de uma quarta temporada repleta de momentos icônicos, entre os quais se destacam a descoberta da origem do vilão Vecna e a execução, pelo personagem Eddie, da canção “Master of Puppets”, do Metallica. O episódio em questão foi tão badalado que a banda fez questão de incluir uma participação do ator Joseph Quinn em alguns de seus shows ao vivo.
Ao final da quarta temporada, era clara a aposta da Netflix em um final épico para as aventuras vividas na pequena cidade de Hawkins, o que restou confirmado com o anúncio de uma quinta e última temporada. E tudo indica que nem mesmo o longo hiato entre temporadas arrefeceu o interesse dos fãs pela série; ao contrário, tendo em visa os primeiros indicadores de audiência e a imensa movimentação nas redes sociais, termômetro de popularidade quase sempre certeiro, os fãs estão ansiosíssimos para maratonar a primeira leva de episódios e se preparam com entusiasmo para o grande encerramento em 31 de dezembro.
Por tudo isso, é inegável concluirmos que o epílogo da série não significará o final da onda de exploração da nostalgia oitentista, tendo em vista os iminentes lançamentos de produções que se alicerçam justamente nessa vertente. São esses os casos do novo live action do He-man, da nova versão de Highlander e da segunda sequência de Gremlins, com estreia já prevista para 2026.
Enquanto muitos criticam a falta de coragem em apostar em projetos verdadeiramente originais e a aparente crise de criatividade que assola Hollywood, parte importante do público consumidor de cinema e streaming tem pautado seus hábitos culturais por um pretenso retorno a uma época mais simples e divertida, que com a devida colaboração de uma memória seletiva ganha cada vez mais espaço no coração dos espectadores.



