Hail to the Thief sempre ocupou um lugar estranho na discografia do Radiohead.
Lançado em 2003, o sexto álbum do Radiohead é considerado um disco de transição, espremido entre os monolíticos Kid A e Amnesiac e In Rainbows, favorito de muitos e, para alguns, possivelmente o melhor álbum da banda. Trata-se de um trabalho essencialmente político, marcado pela paranoia midiática do pós-11 de Setembro e por um mundo que parecia definitivamente perdido. Hail to the Thief (Live Recordings 2003–2009) reúne doze versões ao vivo das doze faixas originais. Não é um registro ao vivo tradicional — assim como I Might Be Wrong, documento da fase anterior, também não é.
Gravadas ao longo de seis anos e diferentes turnês, essas versões revisitam o álbum de estúdio sem domesticá-lo. As músicas soam mais diretas, mais orgânicas e menos sobrecarregadas por efeitos digitais. Faixas como “Myxomatosis” e “There There” ganham peso e clareza. O quinteto aqui é menos cerebral e mais visceral, sem perder a precisão que sempre os definiu como grupo.
Thom Yorke voltou a essas gravações enquanto trabalhava nos arranjos de Hamlet Hail to the Thief, adaptação do texto de Shakespeare que utiliza versões repaginadas do álbum como trilha sonora — um indício claro de como esse repertório continuou vivo e mutável ao longo dos anos.
Na época do lançamento de Hail to the Thief, ele instantaneamente se tornou meu álbum favorito do Radiohead. Eu ainda não tinha gostado — ou entendido — Kid A, e demorei para gostar — ou entender — Amnesiac. Isso só mudou ao ouvir I Might Be Wrong e perceber como aquelas músicas funcionavam tão bem ao vivo. Com Hail to the Thief, estou vivendo um momento semelhante agora. Faixas que eu havia esquecido desse outrora disco favorito — e que foi um dos álbuns mais marcantes da minha graduação — soam ainda melhores no palco.
Ainda em dúvida? Escute a versão de “Go to Sleep”. Se o solo apoplético de Jonny Greenwood não te convencer, então nada mais irá.
Hail to the Thief (Live Recordings 2003-2009) – Radiohead
Gravadora: XL Recordings
Orgânico e intenso, como todo álbum ao vivo deveria ser.
