A Semisweet é um lembrete de que o rock talvez não tenha morrido…
Ano passado eu resenhei o último disco do Bush, I Beat Loneliness. Embora eu tenha visto o álbum figurar em algumas listas de fim de ano como um dos piores lançamentos do período, achei ele regular. Agressivamente regular, como boa parte da discografia dos ingleses. Eu o colocaria na mesma categoria de álbuns como Strays, lançamento do Jane’s Addiction de 2003, e Never Let Me Go, o último disco de estúdio do Placebo, de 2022. Assim como Loneliness — e como tantos trabalhos de bandas dos anos 90 — todos esses álbuns têm seus pontos altos, mas fracassam na tentativa de recriar a mística e o sucesso do passado. Soam datados, esquisitos, compostos e gravados por quarentões e cinquentões tentando, a todo custo, segurar a juventude e o espírito roqueiro enquanto ele se esvai por entre os dedos como areia numa ampulheta.
Aí mataram o rock — de novo — em algum ponto entre o fim da década passada e o início desta. Provavelmente ali pelos idos de 2020, quando os Strokes — os salvadores e um dos últimos bastiões da guitarra elétrica — lançaram The New Abnormal. Uma pandemia global chegou e foi embora e o rock, destituído de protagonismo, lambeu as feridas e começou a ressurgir. Bandas antigas, bandas novas e bandas nem tão novas. As bandas novas, usando toda a tecnologia disponível e as redes sociais como ferramentas e armas, abraçaram o DIY e a irreverência. Muita gente lembra de nomes como Geese, Ty Segall e Turnstile, mas existem muitos artistas menores fazendo o mesmo, longe dos holofotes.
Uma dessas bandas é a Semisweet.
Neste EP autointitulado, Cailey Norris — a voz, o rosto e a mente por trás do projeto — já começa com uma pedrada: “Code Red”. A música se abre com um overdrive quente e gostoso antes da voz de Norris entrar — e que voz! Mas além dos timbres excelentes e dos riffs bem colocados, a faixa me impressionou pelo refrão. Às vezes parece que muitas bandas simplesmente esqueceram como escrever um refrão. Aqueles bem chicletosos, gostosos de cantar, que ficam na cabeça por dias. Aqueles feitos para a galera cantar junto. “Code Red” já seria uma ótima música, mas o que a transforma de boa em excelente é justamente esse refrão. O mesmo acontece em “Blurry Pics” e “Honestly”.
Em pouco mais de dezoito minutos, o EP Semisweet se diferencia bastante do álbum anterior de Norris, Worst Case. A cantora e guitarrista parece ter abandonado a faceta singer-songwriter e entrega cinco faixas de um rock confessional, direto e muito bem resolvido. Há notas, referências e uma influência clara do rock dos anos 90 em todas as músicas, mas, ao contrário dos velhacos noventistas presos na década do grunge, Norris olha para frente. Talvez porque a juventude permita isso. Talvez porque seja o único caminho possível.
Enquanto coroas barrigudos com jaquetas bordadas de motoclubes se regozijam com mais uma turnê do Guns N’ Roses no Brasil, com um Axl Rose fazendo cover das próprias músicas de quando era magro e tinha voz, há uma geração olhando para frente e fazendo música. Eu acredito piamente que meu amigo Lucca tem razão: o novo lugar do rock é de volta ao underground. Mas, mais do que isso, talvez a nova cara — e a nova voz — do rock seja feminina. Cailey Norris e a Semisweet são apenas mais uma prova disso.
Semisweet EP – Semisweet
Gravadora: Flower Door
O rock não é mais caras brancos tocando guitarra. A Semisweet é só mais uma prova disso.
