Barba Ensopada de Sangue vira suspense genérico em adaptação pífia e frustrante

Barba Ensopada de Sangue vira suspense genérico em adaptação pífia e frustrante

(Reprodução)

A adaptação de Barba Ensopada de Sangue transforma um dos grandes romances brasileiros em um suspense genérico, raso e esquecível. Confira a crítica completa.

Ontem, quando saí do cinema do Floripa Shopping, já passava da meia-noite. Voltei pra casa dirigindo no automático, mas com a cabeça longe dali. Estava tentando entender como escrever sobre um filme que parece ter errado em absolutamente tudo.

Não é só uma questão de gosto. É aquela sensação mais incômoda, quase rara: a de ter visto uma história ser completamente distorcida em nome de uma adaptação que não faz sentido nem dentro das próprias regras.

E aí, pelo menos pra min, me trouxe um impasse: como transformar em texto algo que, na prática, parece não ter sido nem pensado como narrativa coerente? Talvez o melhor caminho seja começar pelo ponto mais gritante: a adaptação em si.

E aqui é importante eu deixar claro, quando falo em adaptação pífia, não estou falando das liberdades criativas naturais do cinema. Cortar personagens, fundir arcos narrativos, simplificar núcleos primários e secundários… sei que isso faz parte do jogo. São escolhas que podem e devem ser feitas. E o filme faz isso, ao condensar Dália e Jasmine em uma única personagem. Ok, acontece.

O problema não está aí. O problema é quando a adaptação deixa de ser uma tradução de linguagem e passa a ser uma distorção de essência.

Volto a reafirmar: não estou falando de ajustes narrativos. É sobre decisões que desmontam completamente o universo original. Criar uma praia que não existe, inventar um município fictício, deslocar a história de um lugar que não é só cenário, mas identidade… tudo isso não soa como adaptação. Soa como descaracterização.

A obra original tem um vínculo direto com Garopaba, não apenas geográfico, mas simbólico. A cidade não é pano de fundo, ela é parte da engrenagem da narrativa. Existe uma atmosfera, uma cultura, uma relação viva com o território, especialmente quando entra a questão baleeira. Quando entra toda a história e a relação de gaudério, gaúcho, Porto Alegre, Gaúchos no litoral de Santa Catarina. No filme, isso até aparece… mas de forma superficial, quase protocolar. Como se estivesse ali só pra cumprir checklist.

Outro problema? Vamos falar de atuação e sotaques. Gabriel Leone até mostra traços de uma boa atuação em alguns momentos, mas ela parece constantemente deslocada, como se estivesse em outro filme. Quando surge um “buenas” ou um “bah, tchê”, a sensação não é de construção de personagem, mas de esquete saído diretamente do Casseta & Planeta.

É tudo muito forçado. Os sotaques não têm fluidez, não têm naturalidade, não têm vida. E isso pesa ainda mais quando você compara com o livro, onde a linguagem tem ritmo, intenção e identidade.

Mas talvez o maior sintoma dessa adaptação problemática esteja na própria construção da Jasmine. Até porque Tainá Duarte até ganha mais espaço em cena e, em teoria, isso deveria fortalecer a personagem. Só que acontece exatamente o contrário.

Ao fundir duas trajetórias em uma só (Dália e Jasmine), o filme não expande a personagem. Ele dilui.

No livro, Jasmine é marcada por uma frieza quase defensiva. Existe uma recusa em se envolver, uma resistência emocional que dialoga diretamente com o contexto social em que ela está inserida. Ela não é frágil! Ela é endurecida pelas circunstâncias. Ela tem uma jornada solitária no inverno litorâneo e só quem viveu entende o sentimento de esvaziamento de temporada.

No filme, essa lógica é completamente invertida.

A Jasmine que vemos em tela é fragilizada, dependente, quase definida pela necessidade de encontrar no personagem do Gabriel Leone algo que claramente não se sustenta. E, ao fazer isso, o filme não só altera a personagem, mas compromete toda a estrutura da história.

E aí chegamos no ponto mais difícil de engolir: o filme simplesmente não entende os próprios personagens. E isso é bizarro.

Porque você pode errar na estética, pode errar no ritmo, pode até tropeçar na execução. Mas não entender quem são as pessoas que sustentam a narrativa? Isso é outro nível de problema.

Eu fui preparado. Reli o livro. Terminei na véspera. É uma obra densa, longa, nada fácil. Mas a primeira impressão ao sair da sala do cinema é que o filme simplifica onde não deveria, inverte onde não faz sentido e esvazia onde havia profundidade. Ele cria situações desconectadas, como a ida à fábrica, completamente fora de contexto e distorce outras que têm peso real dentro da história. A relação com os “nativos”, por exemplo, perde completamente o sentido quando deslocada da vivência do litoral de Santa Catarina. Quem conhece a região entende a nuance. O filme transforma isso em algo raso, quase excludente. A participação da Beta na história. O sentimento de solitude que é retratado de forma sem sentido. A ausência da jornada do personagem em direção à natureza, essa busca pelo passado, pelo avô, pelo que é ancestral, simplesmente não existe como deveria.

Em vez disso, temos um desfecho vazio, literal e simbólico: um corpo que não é corpo, um gesto que não significa nada.

E aí tudo desmorona de vez.

No fim, o que fica é uma sensação muito clara: o filme não só falha como adaptação. Ele falha como obra!

Daqui a cinco, dez anos, esse é o tipo de filme que alguém vai lembrar vagamente e pensar: “como é que isso foi feito?”. Não pela ousadia. Mas pela desconexão.

O que é uma pena. Porque “Barba Ensopada de Sangue” é um dos livros mais importantes para muita gente da nossa geração. Moldou nossa visão de mundo, marcou leitura, deixou rastro.

E o que foi feito aqui… não deixa nada.

Nem marca.

Nem discussão.

Nem memória.

Só a sensação de tempo perdido.

Então fica o convite: vá ao cinema e tire suas próprias conclusões.

Frederico Di Lullo

Frederico Di Lullo

Redator publicitário, letrólogo, jornalista & fotógrafo de shows, nasceu na Argentina, coleciona vinil, é fã incondicional de música e um exímio apreciador de artes degeneradas.