Terceira edição do evento idealizado por Alexandre Matias e Arthur Amaral apresentou sete atrações emergentes e reforçou o papel dos festivais na renovação da música independente brasileira
Fui escalado, no sábado, 06 de junho, para cobrir a terceira edição do Chama Festival na Casa Rockambole, local de shows que é um dos “picos” da cena alternativa em São Paulo. Idealizado pelo jornalista Alexandre Matias (do Trabalho Sujo) e Arthur Amaral, da Porta Maldita (outro pico da cena alternativa paulistana), o festival prometia me surpreender.
De início, dois pontos me chamavam a atenção: o extenso número de shows (inicialmente eram 8 artistas, mas a banda paranaense Ultraleve cancelou e não houve substituição, ficando em 7 as apresentações) e o fato de nenhum(a) artista/banda ser headliner, pois todos eram “promessas” que tinham no Chama uma chance de projeção (e que convidariam outros artistas para participar de seus shows). Restava saber se eu aguentaria a sequência de apresentações, se essas promessas teriam cara de realidade e como seriam esses shows participativos.
Cheguei atrasado para o primeiro show (que estava marcado para as 18h) e percebi que estava atrasado. Faz parte, e isso não foi um problema em si, pois a estrutura da Rockambole é legal, com preços honestos na maioria dos drinks e cervejas. Mas isso atrasou todo o cronograma e testou a resistência do público presente. Ah, o público compareceu em bom número (mesmo sem lotar a casa) e prestigiou a maioria dos shows (em festival sempre tem uma galera que vai para bater papo, deixando as apresentações musicais de lado).
O primeiro a subir ao palco foi Felipe Vaqueiro. Confesso que não tinha escutado muito sua carreira solo (ouvi duas vezes o mais recente disco da sua banda, Tangolo Mangos, que foi resenhado aqui no Under Floripa). Vaqueiro fez um setlist intimista, mesclando músicas variadas (destaque para as lançadas no álbum que gravou com Sophia Chablau), com uma pegada Novos Baianos muito interessante. Os convidados Marina Nemesio e Bruno Fechine (seu colega de Tangolo) acrescentaram mais intensidade, sem perder o clima intimista da apresentação. Um ótimo show de abertura.

Após o show de abertura, me desloquei para o outro espaço, menor que o principal, para ver a segunda atração da noite: a banda paulistana Jovita. O grupo começou com uma pegada prog/jazz rock muito boa (destaque para o sax de Caetano Farias, convidado da apresentação) e mostrou que tinha um público presente que curtia o som deles. Mas, do meio para o final, com os outros convidados, a pegada mudou, e a intensidade e o groove do início não se mantiveram. Foi um bom show, mas poderia ter rendido mais.
Terminada a segunda atração, voltei ao palco principal para ver a banda Tubo de Ensaio (foto que estampa esta cobertura). O início promissor do show, com uma pegada prog clara desde os primeiros acordes, foi ampliado com apresentação de dança e luzes. No palco, a vocalista Manu Cestari soltava bolhas de sabão, dançava e fazia pintura livre em um quadro. No som, um poderoso naipe de metais foi chamado para participar. Mas toda essa mistura artística não pegou. O show foi ok e nada mais. As músicas, apesar de interessantes, não empolgaram.
E agora era ir para o espaço menor e ver a promissora banda de jazz rock Besta Fera em um show que prometia muito, inclusive por contar com a participação especial de Paulo Barnabé (da Patife Band). A banda prometeu e entregou um ótimo show, tanto nas músicas com Paulo (que por si só já é um espetáculo à parte) quanto nas composições próprias. Esse show foi o que teve a melhor interação entre artista do line-up e convidado. E, quando a Besta Fera estava “solo”, os quatro integrantes mostraram que são ótimos músicos e possuem ótimas músicas. Para os fãs de prog e jazz rock, e para o público em geral, foi um prato cheio.

Hora de mais um rápido deslocamento para ver o quinteto capixaba Gastação Infinita. Esse foi, sem dúvida, o show que mais transpareceu a alegria da banda em estar no palco. Mas esse entusiasmo da banda não se refletiu, para mim, em um bom show. A Gastação foi o artista que contou com mais participações (anotei apenas os nomes de Felipe Vaqueiro e Gustavo Lacerda, da Maré Tardia — outra banda capixaba). Foi tudo tão intenso e misturado que acabou parecendo uma jam entre amigos em uma festa de final de ano. Foi mais legal para quem estava no palco do que para quem assistia.
Chegado o momento de ver o último show no espaço menor, com a banda Boia. Uma molecada, literalmente, que subiu ao palco para mostrar uma MPB de fazer inveja a muito artista rodado. Um instrumental muito bem feito serve de base para a ótima vocalista Luli Mello soltar a voz, encantando quem assistia. Nesse show, Bruno Fechine voltou ao palco para fazer um cover da ótima “Dominó” (do Tangolo Mangos), e Kim Cortada, outra convidada, também teve uma boa participação na apresentação. Não sou grande fã de MPB, mas o Boia fez um ótimo show, tem boas músicas e é um nome para ficar de olho, pois a molecada toca como gente grande.
E, ao voltar ao palco principal, o corpo não aguentou, e só consegui ver uma música da última atração da noite, o cantor Thalin (por isso não vou comentar o show). Também não consegui anotar todas as participações de convidados que subiram aos palcos ao longo dos seis shows (por isso as omissões).
O Chama Festival foi um ótimo evento para mostrar as novidades que estão surgindo na cena independente. Muito legal ver artistas que estão começando seu processo criativo atraindo um bom público. Os shows que mais me agradaram foram Felipe Vaqueiro, Boia e Besta Fera. Os demais foram legais, mas talvez tenham se perdido nas participações ou no tempo de apresentação (em média, a duração foi de 50 minutos).
Um ponto que sugiro aos organizadores seria pensar em um número menor de shows (cinco acho o ideal), pois a energia foi intensa e, em determinado momento, cansou o corpo 50+. Na chamada, relacionando o festival ao famoso torneio de futebol, queria destacar a importância de eventos que abrem portas ao novo. No caso do Chama, para as mais variadas formas de expressão da música e da arte. No final, a cena independente saiu vencedora.



