Eu acho que eles vão se dar bem: Barrique Bosahen apresenta repertório impressionante na Bugio Trindade

Eu acho que eles vão se dar bem: Barrique Bosahen apresenta repertório impressionante na Bugio Trindade

Foto: Renan Bernardi

O show já havia terminado. Na frente da Bugio Trindade, em Florianópolis/SC, cigarros se acendiam entre risos e falas mil sobre mil assuntos – inclusive sobre o que havia acabado de acontecer do lado de dentro, no palco, minutos antes: elogios aos artistas; comentários sobre a riqueza dos arranjos; a estrutura teatral e cômica entre as canções; as próprias canções; a somzera. Ali me lembrei – e talvez tenha até comentado com alguém: Chico Science & Nação Zumbi no começo dos anos 90, ainda sem lançar nenhum fonograma oficial, eram tratados já como sensação, como “a coisa que mais se falava no meio”. Davam entrevistas para os principais veículos de música do país e um provável murmurinho já ultrapassava as fronteiras brasileiras. Quem via o show, falava do show.

É lógico que os contextos se distanciam em quilômetros, anos, gerações e sonoridades, mas algo me fazia conectar uma coisa a outra. Tempos antes de saber que esse show do dia 31/07, sexta-feira, aconteceria, a Barrique Bosahen já me chamava atenção de maneira quase misteriosa por cortes de gravações de shows em stories de instagram, vídeos curtos de ensaios publicados no feed da banda e a respeitável formação do grupo: “galera da Música da UDESC”, eu falava para contextualizar a banda para quem não conhecia Matheus Oçoski (tuba, flauta e voz), Lu Abreu (gaita, flauta e voz) e Icaro Sereno (baixo e backvocal), acompanhados ainda de Alexandre Rocha (bateria) e da estreia de Magrão Broering (teclado e sintetizador), carimbado músico local, no elenco. E ele, é claro: Pedro Henrique Santos Barbosa, Pedro Barbosa: o próprio Barrique Bosahen, traduzindo seu nome em anagrama codificado para um nome de banda – a negação de soluções como Bon Jovi, Van Halen ou coisa parecida.

Curioso interesse que me fez pegar meu caderninho, subir no 137 – Volta ao Morro Norte via H.U e chegar no já tradicional bar e casa de shows do bairro da Trindade para ver, pela primeira vez, a banda em ação. Não é exatamente que eu estivesse “por fora” por ainda não tê-los visto: Pedro me disse que esse deve ter sido o sexto ou sétimo show da Barrique. Mas não parece. As 10 composições do Pedro se apresentam de maneira profissional pelo grupo, onde os arranjos parecem ter sido desenvolvidos com intimidade pelos músicos: todos eles muito envolvidos com cada trecho, como se pegassem pra si as canções; fazendo mais que um show de músicas autorais do Pedro, um show autoral de todos eles – com músicas do Pedro.

O bandleader-crooner-anfitrião – também ele um “músico da UDESC”, apesar de já ter passado por décadas de aventuras musicais entre o Rio de Janeiro e Florianópolis -, inicia o show sozinho ao palco com seu discurso debochado e apaixonante para, na sequência, ir chamando o restante dos músicos, um a um: Icaro para o baixo, Magrão e Lu para as harmonias, Matheus para os sopros e, por fim, Alexandre para a bateria. Conforme cada músico entrava, a sonoridade de seu instrumento se somava ao tema de abertura, ganhando sua forma completa com Pedro pegando o violão: estava apresentava a Barrique Bosahen – apertem os cintos.

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Barrique Bosahen na Bugio Trindade. Foto: Renan Bernardi

Boa parte da póetica das canções do show versa sobre a “vida de artista” – para citar um termo-nome-de-canção de Itamar Assumpção, grande referência para o projeto. Assim, a ironia de Pedro nos ganha já na primeira faixa: “Desista” é um manifesto sobre a insistência em fazer no meio da incoerência financeira de ser músico, mas que serve de identificação para qualquer um que, na vida, tenha escolhido os próprios rumos. Talvez seja isso que atraia um público já interessado, jovens e adultos, para a Barrique: a coragem de debochar-se e persistir contra a facilidade de desistir e se adequar. Mas vamos com calma.

Depois de um diálogo pseudoensaiado entre Pedro e Matheus Oçoski, que versava também sobre vida-de-artista, “Espanador” é a próxima canção: o groove mantém a energia do show, mas já aqui se apresenta um lado mais suíte da coisa, com um descendo que chega num solo de gaita belíssimo para a banda voltar com um temaço digno de jazz band contemporânea.

Depois de se destacar pelo solo de gaita, Lu Abreu continua central na apresentação cantando o início da ótima “Não Tem Cabimento”, a terceira música do show e uma ponte muito boa entre a segunda e a quarta que, antes de ser apresentada, tem ainda um breve discurso de Lu – protagonista dessa cena do espetáculo.

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Foto: Renan Bernardi

“A Cor Lilás”, a tal quarta canção, tem ares de pop rock, com um arranjo grandioso que faz o refrão – que refrão! – chegar aos ouvidos com uma energia de banda de estádio, nos fazendo esquecer que aquele modesto espaço da Bugio foi, até pouco tempo atrás, conhecido por ter uma parede de escalada ao invés de um palco. Quem diria?

Matheus Oçoski faz novamente uma fala sobre vida-de-artista antes de iniciar um mantra groovado que é logo acompanhado pelos outros membros, com Pedro usando efeitos de pedal na voz de forma perfeitamente exagerada, engrossando o caldo para a banda entrar com um arranjo quebrado que inicia “Sigo Tropeçando”. A sensação é de ver um hit nascendo: sério. Para uma banda de menos de 10 shows, ter mais de 10 pessoas cantando o refrão catártico da canção é algo que me impressiona. Não bastasse isso, a estrutura que funde rap-de-banda noventista, de grupos como Skowa E A Mafia e a próprio-já-citado Chico Science, com um rock brasileiríssimo que faz lembrar coisas de Luiz Melodia, toma a atenção e o corpo do ouvinte. Na execução dessa faixa, um amigo e famoso-agitador-cultural-local passou por mim e disse: “Itamar Assumpção”. É claro, é claro. Mas impressiona também a diversidade que essa referência, inclusive literalmente citada na canção, ganha ao incluir coisas de folk, prog, jazz e psicodelia de uma forma que foge da bagunça, organizando esse caos de influências de maneira muito formalizada, o que com certeza ajuda a entender o apreço do público pela música.

Após toda essa agitação magnífica, Pedro faz um número quase-solo ao violão e voz executando “Esmola Moral”, outra canção sobre vida-de-artista que ao seu final ganha arranjo rockeiro com a banda toda.

“Uma das mais difíceis do repertório”, anuncia o bandleader ao fazer a reapresentação musical dos membros da banda, onde cada nome era falado ritmicamente pelo vocalista, que recebia um cantarolado “va-leu!” de banda e público, num momento de interação divertidíssimo.

Na sequência, uma mistura de boogie com folk entra em cena com “Irrite-me”, faixa que sintetiza bem as músicas do Pedro, condensando uma tradição de canção com groove e letra de irônica violência.

A divulgação da apresentação dessa sexta-feira trazia o título “Essas Coisas Não Saem da Minha Cabeça”, retirado da faixa “Essas Coisas”, que foi apresentada neste momento do show: um destaque maior para o groove, onde o baixo de Icaro ganha respeito e, mais uma vez, a força de um belo refrão, com Pedro cantando junto de Lu Abreu coisas como “eu queria sair de mim” e, numa ponte, me marcou a frase “eu acho que eu vou me dar bem”“eu também acho que eles vão se dar bem”, pensei imediatamente.

Nome de outro projeto de apresentação da Barrique Bahesen, “Lá Vai O Artista” foi a penúltima música do repertório: outra canção muito boa, que agrega algo meio math-folk com uma potência rockeira e brasileira.

Chegando ao fim do show, Pedro faz um discurso teatral sobre “atravessar a rua” para introduzir “Grande Erro”, última faixa da apresentação: uma música justamente sobre a tal travessia, onde um pop rock irônico, com frases como “que saudade do lado de lá” dá, mais uma vez, uma atenção louvável para o refrão.

Se no começo do texto eu disse que, apesar dos poucos shows realizados, a Barrique não parecia uma banda nova, isso não se deve apenas a responsável apresentação dos artistas, mas também ao público já fiel que, em grande parte do show, contou com pessoas dançando e cantando alto as frases malucas do grupo, um sinal de que as canções apresentadas estão muito além do círculo universitário, grupo de amigos ou qualquer nicho que ajude a justificar a popularidade de uma banda quase embrionária: temos aqui um projeto autoral de grande originalidade e de inserção pop, divertido e inteligente. Eu acho que eles vão se dar bem.

Por fim, o irônico “acorde final” anunciado por Pedro não encerrou a apresentação, pois o tal público-fiel pediu alto: mais uma! E Barrique Bahesen reapresentou “Sigo Tropeçando”, agora com aquela energia certeira de quem sabe que a plateia já está plenamente envolvida.

Para me ajudar a escrever essa resenha, ao fim do show pedi para Pedro se eles tinham um setlist com o nome e ordem das músicas: não tinham. São sempre as mesmas 10, apresentadas na mesma ordem, num roteiro realmente teatral, misturando os diálogos ensaiados com discursos conceituais alocados entre as faixas – tudo muito amarradinho. Dessa forma, ele mesmo escreveu o roteiro no meu caderninho. Segue:

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Foto: Renan Bernardi

A sensação pós-show é de querer ouvir as músicas voltando pra casa: espero que essa apresentação gere logo um álbum para que sigamos tropeçando com essas canções também em nossos fones de ouvidos.

Setlist:

1 – Desista

2 – Espanador

3 – Não Tem Cabimento

4 – A Cor Lilás

5 – Sigo Tropeçando

6 – Esmola Moral

7 – Irrite-me

8 – Essas Coisas

9 – Lá Vai O Artista

10 – Grande Erro

BIS: Sigo Tropeçando

Renan Bernardi

Renan Bernardi

Produtor e comunicador cultural. Responsável pela agenda de shows do Inferninho da Bro Cave, em Florianópolis, e editor da revista O Curiosólogo, fundada por ele em 2024. Já colaborou com o Tenho Mais Discos Que Amigos! e a Revista Artemísia, além de atuar em projetos independentes de jornalismo, assessoria e audiovisual.