A banda alemã retorna a São Paulo com show intenso no Carioca Club, reafirmando sua força no stoner rock e entregando uma apresentação hipnótica, mesmo em meio à maratona de shows na cidade.
Cheguei ao Carioca Club depois de cumprir alguns compromissos familiares. Antes disso, um almoço daqueles com meu primo (que mora em São Paulo) já servia como um bom aquecimento emocional para a noite que vinha pela frente.
No bar ao lado da casa, encontro duas lendas de Florianópolis hoje radicadas na capital paulista: Catatau e Bagual. Entre cervejas, conversas e aquela troca de ideias que só acontece quando a música é o centro de tudo, falamos da vida adulta compartilhada entre trabalho e relacionamento e, claro, da cena.
Passamos pelos shows do Lollapalooza da sexta-feira, relembramos o Tapete Tapete no Bar Alto na quinta (fui embora antes de começar) e fomos costurando uma leitura quase orgânica dos últimos dias em São Paulo. Entre um assunto e outro, merch garantido. Era hora de entrar.
Quando cruzamos a porta, a primeira banda já tinha passado. Pegamos a sequência com a Espectro, que entregou um set curto, direto e eficiente. Foram cerca de trinta minutos de um repertório enxuto, cumprindo bem o papel de manter o público aquecido e a noite em movimento.

A banda paulistana trabalha um stoner bem definido, claramente influenciado por Black Sabbath, principalmente nas fases de Vol. 4 e Master of Reality. Com um disco lançado em 2022, homônimo ao nome da banda, os caras mostram consistência estética e sonora, cantando em inglês e apostando numa identidade que não tenta reinventar a roda, mas sabe exatamente onde pisa. Aqueceram o terreno como deveriam.
Vale abrir um parêntese aqui para o Carioca Club.
A casa me surpreendeu (eu não conhecia). Um espaço grande, com um som honesto e uma característica que muda a dinâmica do show: o palco não fica no fundo, mas logo na entrada. A altura do palco também favorece, permitindo uma boa visualização de praticamente qualquer ponto do ambiente.
O show do Kadavar não estava lotado, operando ali entre 60% e 70% da capacidade. Algo compreensível diante do contexto. São Paulo viveu uma verdadeira maratona de shows ao longo da semana, do The Adicts na quarta-feira, no próprio Carioca Club, até D.R.I. com Ratos de Porão no domingo, no Cine Joia. Somado ao Lollapalooza, era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.
Mas isso, definitivamente, não intimidou os alemães.

Pontualmente às 19h45, o Kadavar sobe ao palco. Eu já tinha visto a banda em 2015, em Florianópolis, na época ainda como power trio. E 11 anos depois, é natural esperar evolução. Mas o que se viu ali foi mais do que isso. Foi a confirmação de uma banda que deixou de ser promessa há muito tempo e hoje se sustenta como uma realidade sólida.
Hoje, o Kadavar se apresenta como um quarteto, com Christoph “Lupus” Lindemann (voz e guitarra), Christoph “Tiger” Bartelt (bateria), Simon “Dragon” Bouteloup (baixo) e Jascha Kreft (guitarra e teclados), incorporado recentemente à formação. Essa nova configuração, consolidada nos trabalhos mais recentes, amplia ainda mais as possibilidades sonoras da banda sem abrir mão da essência.
Com uma discografia consistente, o Kadavar finalmente parece confortável fora da sombra de Berlin. Ainda que, para mim, esse siga sendo um dos grandes momentos da banda. Até porque distorção e psicodelia continuam como pilares inegociáveis e isso se traduz ao vivo em uma experiência que beira o hipnótico.

O show é uma viagem analógica, conduzida sem pressa, mas com intensidade constante.
O repertório também se apoiou nos trabalhos mais recentes, como I Just Want to Be a Sound e K.A.D.A.V.A.R., lançados no último ano da banda. Foram cerca de 14 músicas em uma apresentação que se estendeu até por volta das 21h30, mantendo uma energia crescente e consistente do início ao fim.
Existe também uma conexão evidente entre o Kadavar e o público brasileiro. Isso se refletia na plateia: camisetas, entrega e um senso coletivo de pertencimento. Não era só gente assistindo a um show — era gente que sabia exatamente o que estava vivendo ali.
Entre uma música e outra, o coro vinha forte:
KA – DA – VAR! KA – DA – VAR!
Sobre o repertório, não faltaram clássicos como “Last Living Dinosaur”, “Black Sun” e “Lies”. Uma revisita sólida à trajetória da banda, com espaço tanto para o passado quanto para o presente, sem cair em um exercício puramente nostálgico.
Agora, o que realmente me pegou foi a versão de introdução de “Goddess of Dawn”. Ali, a banda mostrou exatamente o tipo de controle e sensibilidade que só vem com o tempo de estrada.

Um detalhe curioso, pelo menos para mim, foi o posicionamento no palco: o baixista centralizado, conduzindo boa parte da performance, enquanto o vocal principal ocupava a esquerda. Uma dinâmica pouco convencional, mas que funcionou bem e deu ainda mais personalidade ao show.
Em resumo, foi um show do caralho.
E como todo bom fim de rolê paulistano pede, a noite não terminou ali. Depois do show, Praça da República. A lanchonete Estadão Bar e Lanches. Sanduíche de pernil, coca gelada e torresmo.
Um encerramento simples, direto e absolutamente perfeito.
Pronto para voltar para Desterro e retornar a São Paulo sempre que possível.



