Tinha pensado em começar esse texto falando do quanto Pennywise, Millencolin e até Mute foram importantes para a minha formação musical. Mas, na hora em que sentei para escrever, ficou claro que não era sobre mim.
Porque o que aconteceu ontem na Life não foi só um marco pessoal. Foi um marco coletivo.
A felicidade de quem estava ali, gente da cidade, gente que veio de outras regiões de Santa Catarina, para ver duas lendas que, durante anos, pareciam distantes. Bandas que a gente aprendeu a ouvir em fone estourado, em MP3 mal nomeado, em fórum, em rolê. Surfando. Andando de skate.
E, de repente, elas estavam ali. No teu quintal. Na tua cidade. Nas tuas áreas, sem precisar transformar isso em uma logística absurda. Era só chegar em um lugar onde tu já foste centenas de vezes… e viver aquilo.
Isso muda tudo.
E deu para ver no rosto das pessoas.
Nos abraços. Nos reencontros da galera. Era quase automático: olhar, sorrir, abraçar e meio que confirmar: “a gente está vivendo isso mesmo”.
Porque, no fundo, era isso.
A trilha sonora que moldou a nossa juventude tocando ao vivo, na nossa frente.
E vamos ser sinceros: o público dizia muito sobre isso. Era 30, 40+. Gente que cresceu ouvindo hardcore melódico, que atravessou fases, trabalho, perrengue, casou, separou, engordou, ficou careca, teve filho, entrou na rotina, mas que ainda carrega esse som como parte da identidade.
Ontem não foi só show. Foi memória, pertencimento e validação de uma geração inteira.
Dito isso, vamos para a resenha da turnê We Are The One, que passou por Florianópolis no dia 25 de março, com Pennywise, Millencolin, Mute e The Mönic, e que fomos cobrir na Life Club, em Canasvieiras.
Bom, sair de Palhoça e ir até a Life é sempre um pequeno teste de paciência, ainda mais no fim do dia. Mas, dessa vez, o trânsito colaborou. Chegamos já na virada de palco, com a The Mönic tendo acabado de tocar. Ficou o gosto de “perdemos essa”, mas entra fácil na lista de próximas.

Sem muita enrolação, os canadenses do Mute já estavam no palco.
E aí veio a surpresa.
Nunca tinha visto a banda ao vivo, e o impacto foi imediato: som limpo, execução afiada e uma fidelidade quase absurda ao que eles entregam em estúdio. Não tem aquela diferença gritante entre o que tu ouves no fone e o que chega no PA. Eles simplesmente reproduzem ao vivo com a mesma precisão dos discos.
E isso, convenhamos, não é tão comum quanto deveria ser.
A banda, que hoje soma seis trabalhos na discografia, sendo o último lançado há mais de 10 anos, desceu a lenha e entregou um show curto, preciso e intenso. Hardcore melódico no talo, sem espaço para respiro.
O set veio fortemente apoiado no Thunderblast, de 2011, disco que concentra boa parte das faixas mais conhecidas, como “Bates Motel” e “Nevermore”. E isso fez toda a diferença. Foi direto no ponto, sem firula, só pedrada atrás de pedrada.
E, bom… foi um show muito, muito foda.
Depois do show, veio o ritual clássico: cerveja na mão e fila do banheiro, como bons jovens adultos. No caminho, encontro o Zeca. Abraço daqueles demorados, meio desajeitados, meio necessários. Quem vive isso entende.
A troca de palco levou até umas 20h15. Tempo suficiente para dar aquela respirada… e também para sentir que o negócio ia subir de nível.
E subiu.
Quando o Millencolin entrou, já não tinha mais volta. O quarteto sueco trouxe tudo aquilo que a gente já sabe e espera: hardcore melódico rápido, preciso, cheio de energia e com refrões que atravessaram décadas nos nossos MP3.

Nesse momento, começaram as rodas punks, com homens e mulheres vivendo esse momento especial. Nem parecia quarta-feira, 20h30 da noite.
Foram 19, talvez 20 músicas. Mas, sinceramente, em certo ponto ninguém mais estava contando.
Era hit atrás de hit.
A abertura com “Penguins & Polar Bears” já foi um soco direto: zero aquecimento, a pista virou um coro instantâneo. E dali para frente, o Millencolin simplesmente não tirou o pé.
“Leona”, “Fox”, “Mr. Clean”, “Kemp”, “Bullion”… uma sequência que não dava espaço para respirar. Era roda abrindo, gente gritando cada verso, braço para o alto o tempo inteiro.
E no palco, os suecos estavam soltos. Carismáticos, próximos, puxando interação o tempo inteiro, arriscando português, rindo, devolvendo a energia que vinha da pista.
“The Ballad” trouxe aquele respiro estratégico. Começando só na guitarra, quase íntima, foi o tempo suficiente para todo mundo se encontrar antes de explodir de novo com a banda inteira entrando junto.
E aí veio o momento. O da galera que cresceu no PlayStation jogando Tony Hawk’s Pro Skater 2. Não tem surpresa aqui. Todo mundo sabe. A banda sabe. A galera sabe. Mas quando ela começa… esquece.
Virou catarse.
Um mar de gente cantando junto, como se fosse a última música da vida. Um daqueles momentos que justificam sair de casa, pegar estrada, enfrentar trânsito. Tudo. Caso você ainda não tenha sacado, estou falando de “No Cigar”.
Sinceramente, deu para sentir que Nikola Sarcevic, Erik Ohlsson, Mathias Färm e Fredrik Larzon estavam tão dentro quanto a gente, felizes de estar aqui, nesse canto do mundo que, por uma noite, virou o centro de tudo. Eles estão juntos há mais de 30 anos.
Pouco antes das 22h, as luzes se apagam e um vídeo entra no telão: fundo azul, letras brancas, diretas. Um recado da Desgosto Discos. E ali, antes mesmo do primeiro acorde, já dava para sentir o peso do que estava por vir.
Porque, sem desmerecer ninguém que passou pelo palco, em nível hierárquico, o Pennywise é outro patamar. É uma das maiores bandas de hardcore do mundo. E, para quem cresceu nos anos 90 e 2000, ou teve o punk como trilha de formação, é praticamente impossível não ter cruzado com esse nome em algum momento da vida.
O vídeo falava sobre isso. Sobre o momento. Sobre a importância. E, principalmente, agradecia ao público por tornar aquilo possível.
E, sinceramente, dá para criar mil leituras sobre aquela mensagem. Mas a mais simples, e talvez a mais honesta, é essa: obrigado.
Obrigado por alguém ter comprado essa ideia. Por ter bancado trazer uma turnê desse tamanho para Florianópolis. Porque, para quem é daqui, sabe.
Isso aqui era impensável. Dez, quinze, vinte anos atrás, a realidade era outra. Era hardcore na raça. Era show improvisado, era correr atrás de espaço, era rolê sem estrutura nenhuma. Era fazer som onde dava. No Plataforma, no Bar do Professor, Iate Casablanca, Covernation, Pã Pub, Bar Budos. Em qualquer canto que aceitasse barulho. Era ir para a Lagoa sem saber como voltar. Era esperar amanhecer. Era dormir onde desse.
E agora… isso. Um palco desse tamanho. Uma banda desse tamanho. Na nossa cidade.
Mas, como eu disse lá no início, isso não é sobre mim. É sobre nós.
Então fica aqui: obrigado, Desgosto. Obrigado, Zeh. Obrigado, Gustavo. Obrigado a todo mundo que fez isso acontecer.
Em Apocalypse Now, obra-prima de Francis Ford Coppola, tem aquela cena em que os norte-americanos despejam napalm para que alguém possa surfar.
As explosões, o som, o caos. É impossível ficar indiferente.
O início do show do Pennywise teve um efeito parecido.
Foi instantâneo. Literalmente, um colapso coletivo. Uma turba em estado de histeria. Em segundos, a pista virou uma das maiores rodas de pogo que Florianópolis já viu. E dali em diante, não teve mais volta. E talvez o mais impressionante: apesar de todos os elementos estarem ali, mais de duas mil pessoas, energia no limite, rodas gigantes, nenhuma confusão.
Por quê? Porque o que une essa massa em uníssono é maior do que qualquer impulso de confronto. É o mesmo sentimento que faz uma produtora apostar em trazer duas das maiores bandas do gênero para uma cidade que, muitas vezes, fica fora do mapa.

As luzes ainda nem tinham voltado completamente quando o Pennywise entrou rasgando, sem cerimônia, sem respiro, como tem que ser. Foi um ataque direto. Som alto, seco, no talo. A pista virou caos em segundos.
As rodas punk simplesmente brotavam. Em todo canto. Era gente se jogando, se levantando, se abraçando, girando como se aquele momento estivesse guardado há anos.
A banda veio com um repertório que não negocia: “Peaceful Day”, “Fuck Authority”, com destaque para o coro berrando FUCK TRUMP, “Same Old Story”, “Straight Ahead”… uma sequência que não dá espaço para pensar, só para sentir e sobreviver ali no meio. Teve ainda cover do Ramones e do NOFX, com “Blitzkrieg Bop”, “Bob” e “Kill All the White Man”. Era intensidade constante. Suor, grito, catarse.
E depois de umas 15 ou 16 músicas, veio o final, precedido pelo também cover “Stand By Me”. Sim, falo de “Bro Hymn”.
E depois disso acabou. Ou melhor, o We Are The One Tour se eternizou. Porque não foi só o encerramento de um show. Foi um daqueles momentos que a gente vai passar o resto da vida tentando explicar e nunca vai conseguir direito.
Foi histórico. Foi épico. Mas, mais do que qualquer palavra grande, foi real.
Daqueles que entram para a memória da cidade.
Daqueles que, daqui 10, 15 anos, vão ser lembrados como se fossem mito, tipo os shows do Raul Seixas, Fito Páez, Dio, Paul McCartney, Tim Maia ou Mamonas Assassinas por aqui. E pode colocar nessa lista, sem medo: o Pennywise no We Are The One Tour.
Quem foi, viveu. Quem não foi… vai dizer que foi.
Voltei para casa feliz pra caralho. Dormi bem, acordei cedo e fui trabalhar.
A vida é feita de som e fúria, já dizia William Faulkner.



