Sim, eu estou resenhando um álbum de 2024.
A prioridade deste espaço de resenhas — o filé do nosso site — são, é claro, os lançamentos. Mas, como a gente faz a nossa própria pauta, às vezes escolhemos pegar um álbum mais antigo, ou um não tão lançamento que passou sem um texto, mas que absolutamente merece nossa atenção. O disco de estreia do Carmino, de 2024, Casa de Badalação & Tédio, é um desses.
Eu conheci o Carmino através de uma entrevista que ele deu pra gente no ano passado. Umas semanas depois, assisti a ele tocar no Haôma com a Verde Menta e a Indigans. Antes de começar o show, ele estava no fundo da casa, de camisa, gravata e com sua característica maquiagem vermelha sobre os olhos, escondidos atrás dos óculos. Reconheci-o pelas fotos, fui cumprimentá-lo e dei o tradicional desejo de “quebre a perna”. Ele, meio sem entender, perguntou: “Mas você tá indo embora?”, meio encabulado. Eu, igualmente encabulado, disse que não. Expliquei que, por superstição, não se deseja sorte a alguém que está prestes a se apresentar. Finalizei com um “merda” antes de descer para um cigarro, enquanto a banda montava o palco.
Não vou me alongar sobre o show, porque isso aqui não é cobertura — é resenha de álbum.
Assim como no show, o primeiro impacto ao ouvir o álbum é a voz do próprio Carmino. “Mantra” talvez seja o melhor exemplo disso. O som da guitarra limpa coroa a voz enquanto ele, desnudo de produção e de outros instrumentos, solta a voz em melismas e vibratos tão naturais quanto a própria letra. É um talento nato, combinado a um timbre suave, sedutor e sutil, além de perfeitamente afinado.
“Espirais”, “Colateral” e “Memórias Póstumas de Carmino” constroem uma constroem uma veia pop pulsante e precisa, sem negar a influência no indie. Já “Gosto de Sol”, guiada por sintetizadores, é imediatamente dançante. “Contos da Lua Vaga” joga um refrão com cara de hino indie, enquanto Carmino declama que não sente gosto de mais nada. “Dragões (No Meu Quintal)” traz aquele ímpeto de indie de pista, numa verve que me lembrou muito Two Door Cinema Club ou The Bravery.
O que se desenha ao longo do disco é um jogo constante de equilíbrio entre o elaborado e o essencial. As faixas se apoiam em estruturas acessíveis, quase intuitivas, mas são atravessadas por escolhas estéticas que impedem uma leitura superficial. Há um cuidado em tensionar o imediato com o elaborado, o dançante com o contemplativo — e é nesse espaço que o álbum encontra sua identidade.
Carmino traça um caminho possível para a música pop. Pop no sentido mais geral da palavra — não como gênero, mas como música para dançar. Músicas pra se ouvir no rádio, no carro, balançando a cabeça e cantarolando, tentando acertar a letra. A força de Casa de Badalação & Tédio está na capacidade de soar imediato sem ser raso, acessível sem abrir mão da personalidade do canto. Um disco que te convida despretensiosamente a entrar em seu mundo. Quando você menos percebe, ele já te cativou.
Casa de Badalação & Tédio – Carmino
Gravadora: Tratore
Pra quem nunca viu Carmino ao vivo, veja. Pra quem nunca ouviu Carmino, ouça.
