Portugal. The Man – Shish (2025)

Portugal. The Man – Shish (2025)

(Reprodução)

Denali, ou Dinali, no idioma do povo Koyukon, significa “grande” ou “alto”.

Em janeiro do ano passado, o governo Trump mudou a designação oficial do Monte Denali — a montanha mais alta da América do Norte — de volta para seu nome colonial, Monte McKinley. Além de ser mais um exemplo da pequenez daquele homem e da birra que ele nutre pelo ex-presidente Barack Obama, que em 2015 havia restabelecido o nome indígena como designação oficial, há todo um contexto político a ser analisado. Entre muitos outros feitos, William McKinley, presidente dos Estados Unidos de 1897 a 1901 que dá o nome à montanha, deixou como legado a consolidação do imperialismo norte-americano, com a anexação de territórios como Havaí e Porto Rico, além de um protecionismo econômico agressivo, implementando tarifas de até 50% sobre produtos importados.

Soa familiar?

Mas, Alexandre, por que em nome de tudo que há de mais sagrado neste mundo você está abrindo a resenha de um álbum do Portugal. The Man falando sobre política?

Primeiro, porque sou americanista com um profundo interesse em estudos culturais. Como acadêmico, poucas coisas me são mais instigantes do que escrever sobre a relação entre produtos culturais e o tempo histórico em que foram produzidos. Segundo, porque toda arte é intrinsecamente política. E John Gourley, o rosto por trás da banda com a pontuação desnecessária no nome mais notória da música norte-americana, lançou este álbum com uma faixa intitulada “Denali” como abertura e primeiro single.

Começar

É impossível ler as canções deste álbum sem considerar o contexto político em que os Estados Unidos se encontram. Hoje radicada na descolada Portland, a banda não esconde suas origens no Alasca, um estado notoriamente conservador e isolado, e, em meio às letras, presta homenagens ao seu estado de origem. Além da menção ao Monte Denali, o nome do álbum, Shish, é uma referência ao povoado de Shishmaref, um dos locais mais isolados do mundo. A capa do álbum é uma fotografia tirada na região, nos idos de 1960.

“Denali” pode ser lida como um hino anticapitalista, fazendo referências ao consumismo desenfreado, às mudanças climáticas, a guilhotinas, LSD e tantas outras coisas, em uma canção que consegue ser dançante e um primor no que diz respeito à produção. As vozes de Gourley e de sua companheira e backing vocal, Zoe Manville, soam mais afinadas e em sintonia do que nunca. Ao mesmo tempo, “Denali” traz riffs e um break que estão entre as coisas mais pesadas que a banda já escreveu. Gourley não demonstra medo ou receio algum em descer a mão, especialmente na primeira metade do álbum. “Pittman Ralliers” não se parece com nada que a banda tenha feito até aqui, e isso não é ruim. “Knik” começa mais frágil, mas logo emenda um riff com um fuzz tão gostoso que me peguei fazendo um stank face.

Saudades Nic Nocturnal…

Shish é essencialmente um álbum de rock, mas ainda oferece um pouco de tudo para todos. O pop fácil de “Tanana”, o novo cânone americano em “Kokhanockers” e “Father Gun”, e um pouco do Portugal. The Man mais clássico em “Angoon”. Musicalmente, é coeso, mas são os temas das letras que mais chamam atenção. Trata-se de um álbum profundamente contemporâneo, que fala sobre isolamento, solidão, tristeza e sobre não encontrar sentido em um mundo progressivamente mais hostil e caótico. Versos como “You’ve been lonely long enough to know it hurts” (“Você está solitário há tempo suficiente para saber como dói”, em tradução livre), em “Knik”, deixam essa temática escancarada.

Ao mesmo tempo, “Mush” explora a vida interiorana, possivelmente a infância e a adolescência de Gourley, o que faz deste trabalho, talvez, o mais pessoal de sua carreira.

Mas é no contraste entre Denali e McKinley que reside a verdadeira força do álbum. Há um abismo entre o quase manifesto dançante de “Always was, always will be, Denali” (“Sempre foi, sempre será, Denali”) e os gritos de “We have become McKinley” (“Nos tornamos McKinley”). As guitarras descem com a mesma violência dos vocais desesperados e das imagens de fogo e enxofre que, biblicamente, caem dos céus na segunda faixa. Parece escancarado, mas não é: para o ouvido desatento, a mensagem pode passar apenas como mais um refrão.

Shish funciona nesse estado de suspensão — entre o dançante e o confronto. É impossível ouví-lo parado, mas ele exige atenção. O que soa acessível à primeira audição revela camadas cada vez mais incômodas a cada audição. Em um momento histórico marcado por regressões simbólicas, apagamentos culturais e uma sensação generalizada de desalento, Portugal. The Man entrega um álbum que entende este tempo histórico e responde a ele sem panfletagem, usando o som, o corpo e a memória como resistência.

10

Shish – Portugal. The Man

Gravadora: Thirty Tigers

Se também não você não fez uma stank face ao ouvir "Knik" ou ficou quieto ouvindo "Tanana", você não tem coração.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.