Astral Vaga – Unção Honrosa (2026)

Astral Vaga – Unção Honrosa (2026)

(Reprodução)

A invasão tuga continua na redação do Under Floripa!

Embora eu ande rejeitando tudo que chega até mim de forma algorítmica, às vezes um ou outro passa meu bloqueio e decido ir em frente. Aquela brincadeira de dizer que “construí meu algoritmo pedaço por pedaço” faz todo sentido, já que os anúncios de produtos duvidosos para calvície simplesmente sumiram da minha timeline e foram substituídos por bandas pequenas de todos os cantos do mundo e de todos os gêneros possíveis. Eis que, numa terça-feira de carnaval preguiçosa, me aparece o Astral Vaga em meio à rolagem infinita e à torrente constante de shitposts.

Assim como a Mães Solteiras, formada por veteranos da cena punk portuguesa e resenhada recentemente aqui, o Astral Vaga também nasce de duas décadas na cena: é o novo projeto de Pedro Ledo, um nome que circula há anos pela cena independente portuguesa, conhecido pelas bandas The Miami Flu e Lululemon. O Astral Vaga surge como um novo capítulo dessa trajetória, menos preso à lógica de banda e mais interessado em explorar texturas e atmosferas com mais liberdade.

Sem cair em uma nostalgia tosca, Unção Honrosa usa os anos 80 quase como trampolim. Os timbres estão lá — especialmente nos beats e na sonoridade da bateria, além dos baixos cheios de chorus à la Peter Hook —, mas o disco evita o revisionismo ou qualquer tentativa de reconstrução. Usa essa paleta para pintar um lugar mais difuso, denso e contemporâneo, não tão diferente do que o Kavinsky fez em “Nightcall” há uns quinze anos.

Há um impulso dançante que atravessa todas as faixas e se manifesta de formas diferentes: “Lamento” e “Desfeito” se destacam pelo equilíbrio entre melodia e ritmo, enquanto “Nada a meu favor” desacelera e puxa o álbum para um território mais introspectivo. “Roxo” fecha tudo de forma frenética, quase como um último suspiro de energia antes do silêncio.

A parte mais curiosa é que os anos 90 praticamente não entram na equação. Não há o peso ou a raiva do grunge, nem a densidade carrancuda do pós-punk revival. O Astral Vaga parece ignorar esse caminho intermediário e faz uma espécie de atalho direto dos 80 para o presente, o que acaba dando ao álbum uma identidade anacrônica — e, por isso mesmo, inesperadamente incrível.

8.5

Unção Honrosa – Astral Vaga

Gravadora: Altafonte Portugal

Um gajo oitentista perdido no Século XXI. Incrível.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.