Em 1999, viajei para Bariloche com minha família. Ficamos hospedados em um lugar chamado Villa Don Orione, às margens do Rio Neuquén. Eram pequenas cabanas cercadas por uma paisagem absurda. Eu tinha 11 ou 12 anos e, todas as noites, as crianças e adolescentes se reuniam em uma sala de jogos.
Numa dessas noites, um garoto de uns 15 anos apareceu com uma fita K7 cuja capa trazia dois personagens nus em forma de desenho. Colocou a fita para tocar e, de repente, começou uma sequência de músicas rápidas, agressivas e praticamente sem intervalo entre uma faixa e outra. Era Kum Kum, um dos discos do Fun People, que anos depois se tornaria um dos meus favoritos.
Corta para 2007.
Saí de Florianópolis rumo a Balneário Camboriú numa excursão para o Vans Zona Punk Tour. Entre as atrações estava Boom Boom Kid, projeto argentino liderado por um tal de Carlos Rodríguez, mais conhecido como Nekro.
O resumo da história é simples.
Nekro foi o fundador, principal compositor e rosto do Fun People entre 1989 e 2000. Quando a banda chegou ao fim, ele decidiu não repetir a fórmula e deu início a um novo capítulo: Boom Boom Kid.
Mas antes de existir o BBK, existiu o Fun People. Enquanto boa parte da cena hardcore seguia caminhos mais tradicionais, o grupo misturava punk, hardcore, pop, reggae, ska e até elementos de música experimental. As letras falavam sobre direitos humanos, vegetarianismo, diversidade, igualdade e críticas sociais numa época em que esses temas ainda eram pouco discutidos dentro do rock latino-americano.

Com o fim da banda, Boom Boom Kid nasceu como uma continuação natural dessa liberdade artística, só que sem qualquer limite estético.
E definir o som do Boom Boom Kid nunca foi uma tarefa simples.
A base continua sendo o punk rock, mas limitar sua música a esse rótulo seria injusto.
Ao longo da discografia aparecem influências de hardcore melódico, power pop, rockabilly, surf music, garage rock, reggae, soul e até do pop sessentista. Tudo isso costurado por melodias extremamente marcantes e por uma maneira muito particular de compor.
Durante mais de duas décadas, Carlos Rodríguez construiu sua carreira praticamente à margem da indústria tradicional. Gravou discos, organizou turnês, lançou materiais por selos independentes e estabeleceu uma relação direta com o público muito antes de isso virar tendência.
Sua postura continua fiel à ética DIY (Do It Yourself), princípio histórico do punk que valoriza autonomia, colaboração e construção coletiva.
Mais do que um discurso, essa filosofia sempre esteve presente na forma como conduz sua carreira.
Talvez por isso Boom Boom Kid tenha conquistado um público tão fiel em diferentes países da América Latina, Europa e Japão.

Hoje, tornou-se uma figura cult justamente porque sua influência vai muito além dos números.
Bandas de hardcore, punk e rock alternativo de toda a América Latina frequentemente citam Carlos Rodríguez como referência artística e ética. Sua obra atravessa gerações porque nunca parece presa a uma tendência específica.
É comum encontrar veteranos que acompanharam o Fun People nos anos 1990 dividindo espaço com jovens que descobriram sua música recentemente.
Voltando para 2007, posso dizer sem medo de errar: foi um dos shows mais viscerais que já vi.

Ao som de “Wasabi!”, uma puta música instrumental, Nekro simplesmente surfou sobre a galera.
Foi do caralho.
Acompanhar toda a discografia, porém, é um baita desafio. Existem inúmeros bootlegs, discos ao vivo, compilações e relançamentos. Só no Spotify são 24 álbuns disponíveis.
Mas, se eu puder dar um conselho, comece por Okey Dokey (2001), Wasabi (2007) e Gatilho Preto Maulla (2010). São os meus favoritos e representam muito bem as diferentes fases do projeto.
No fim das contas, assistir a um show de Boom Boom Kid sem conhecer sua trajetória ainda rende uma experiência incrível. Mas entender quem é Nekro, sua história com o Fun People e a importância da sua postura independente faz tudo ganhar outra dimensão.
E Florianópolis terá uma oportunidade histórica.
Pela primeira vez, Boom Boom Kid se apresenta na capital catarinense. Será apenas a terceira passagem do artista pelo estado — a primeira foi justamente naquele show do Vans Zona Punk Tour, em Balneário Camboriú, em 2007; a segunda aconteceu no Warren Stannis Festival, em Guaramirim, em 2022.
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Pode ser a única chance de ver uma das figuras mais importantes da história do punk latino-americano por aqui. E, sinceramente, isso não acontece todo dia.



