Entre pop, psicodelia, teatro e sentimentos à flor da pele, a artista catarinense conversa com o Under Floripa sobre “Jura?”, seu primeiro EP, a relação com o palco e os caminhos da música autoral em Santa Catarina.
Quando conversamos sobre “Jura?” pela primeira vez, em setembro, tive a nítida sensação era de que Déborah estava abrindo uma porta nova dentro do próprio trabalho. O quarto single autoral da cantora aproximou seu pop de referências da música brasileira e da psicodelia, sem necessariamente abandonar tudo aquilo que havia aparecido anteriormente em suas músicas.
Talvez porque definir exatamente onde Déborah está seja uma tarefa meio ingrata.
Natural de Tubarão e vivendo em Florianópolis, ela carrega na bagagem música, teatro, dança, capoeira, pop, MPB, funk, latinidade e tudo aquilo que aparece pelo caminho. Mais do que escolher um gênero, parece interessada em descobrir o que cada música pede.
E “Jura?” é parte importante desse movimento.
A faixa abre caminho para um futuro EP marcado por um período particularmente visceral de sua vida. Ao mesmo tempo, a artista começa a experimentar outra relação com os palcos: depois das apresentações intimistas em voz e violão, estreou neste ano o show autoral com banda, formato no qual encontrou espaço para juntar música, figurino, corpo, performance e narrativa.
Em conversa com o Under Floripa, Déborah fala sobre esse momento, o processo de composição, o desejo de provocar sensações no público e o que ainda falta para quem tenta construir uma carreira autoral em Santa Catarina.

Under Floripa — Você começou seu trabalho autoral em 2020, mas estreou o show com banda apenas neste ano. O que mudou na sua relação com a música e com o palco ao sair do voz e violão?
Déborah Araújo — São propostas diferentes. O voz e violão, que faço com o Paulo Pfutzen no show Déborah em Suspensão, é muito mais intimista e próximo do público. Você consegue perceber a palavra, os detalhes e até sentir as músicas de outra maneira.
Com a banda, consigo acrescentar muito mais elementos. Posso focar na performance, pensar cenário, figurino e explorar outras linguagens que fazem parte da minha trajetória. Tenho uma caminhada de mais de dez anos no teatro, antes mesmo de me jogar de vez na música, então essa possibilidade de criar um palco cheio me instiga muito.
Hoje me identifico mais com esse formato porque consigo expressar várias das linguagens que estudei durante a vida. E, de certa maneira, é também uma volta às origens: comecei cantando em bares da região de Laguna e Tubarão acompanhada por banda. Sempre gostei desse palco cheio.
Under Floripa — “Jura?” soa como um ponto de virada, aproximando seu pop da psicodelia e da música brasileira. O que levou você para esse caminho?
Direção de fotografia: Noel Peralta
Produção: Leonardo Mendes e Lorenzo Heald
Produção musical: Paulo Pfutzen
Déborah — Eu venho mudando muito. Como artista e como pessoa, estamos sempre buscando coisas novas, e minhas referências também mudaram. Quando estava produzindo “Jura?”, há uns dois anos, estava ouvindo muito Tulipa Ruiz, Céu, Curumin… Entrei em lugares da música brasileira que antes não faziam tanto parte do que eu escutava.
Meus primeiros singles vêm de um lugar mais pop e também de experimentação. Agora comecei a trazer esse lado da música brasileira, um pouco mais alternativo, e juntar isso ao pop, que continua sendo algo muito meu.
Cresci ouvindo de tudo. Minha mãe é sanfoneira: tinha Joelma, Falamansa, sertanejo raiz. Meu pai ouvia Elvis, Caetano, MPB, samba. Também cresci ouvindo Ivete, Anitta, Lady Gaga, Rihanna, Beyoncé. Então minhas referências sempre foram muito ecléticas.
Eu me considero uma artista pop justamente porque consigo conversar com vários gêneros. Não quero me fechar. “Jura?” representa a abertura de mais um caminho.
Under Floripa — Suas músicas já passaram pelo funk, por percussões dançantes e por influências latinas. Quando você começa uma composição, o que costuma aparecer primeiro?
Déborah — Cada música tem um momento específico. Já tive música que foi quase um “baixar o santo”: eu estava agoniada, peguei o violão e precisava encontrar aquela melodia que estava na minha cabeça. Outras vieram devagar.
“Emoções”, por exemplo, começou com o refrão durante a pandemia e foi crescendo aos poucos. “Ojos de Bruja” nasceu de uma frase que escrevi durante uma viagem ao Equador e levou anos até virar uma música. Comecei cantando e fazendo percussão com as próprias mãos.
Geralmente começo pela melodia e a letra aparece depois, mas não existe regra. “Jura?” e “Fome de Gente” vieram praticamente inteiras, de maneira muito visceral.
Tudo o que vivo acaba entrando de alguma maneira: teatro, dança, capoeira, viagens, coisas que vejo na rua, histórias que escuto. Mesmo quando escrevo algo que não vivi exatamente daquela maneira, precisa passar por algum sentimento meu. Não consigo escrever sem sentir.

Under Floripa — E o teatro parece ocupar um espaço cada vez maior nisso. Quanto existe de atriz quando você está cantando?
Déborah — Tudo. Para mim, teatro, música, dança e performance estão completamente conectados.
Eu amo contar histórias e criar narrativas no palco. Gosto da ideia de construir um universo e fazer com que as pessoas mergulhem nele comigo. Por isso penso na roupa, nas cores, no figurino, no corpo e no que cada música está querendo dizer.
Algumas performances são ensaiadas porque quero que determinado movimento represente uma sensação específica junto com a letra. Outras simplesmente acontecem no palco, muito pela trajetória que já tenho de estudo corporal.
É no ao vivo que existe essa comunhão. Meu corpo fala muito durante os shows. Gosto de juntar essas diferentes expressões e criar o meu próprio universo.
Under Floripa — Seu primeiro EP terá quatro faixas, incluindo “Jura?” e “Fome de Gente”. O que une essas músicas?
Déborah — Esse EP é quase um parêntese na minha carreira. As quatro músicas foram escritas há três ou quatro anos, num momento muito visceral da minha vida. Eu estava sentindo tudo muito à flor da pele.
É um trabalho intimista, verdadeiro e cru. Mesmo tendo arranjos de vozes e alguns elementos eletrônicos, a ideia não é deixá-lo excessivamente polido. Algumas vozes foram gravadas praticamente em um único take porque eu já carregava essas músicas comigo há muito tempo.
Falo de desejo feminino, luto, insegurança, coragem e renascimento. Tem o luto por pessoas que morreram, mas também pelo que eu fui um dia. São sentimentos muito íntimos e, às vezes, sentimentos que temos até vergonha de falar.
Eu faço música para sentir. Não quero estar no palco apenas sendo “bonitinha” ou afinada. Quero causar alguma coisa, mesmo que seja um estranhamento.
Quando alguém chega depois do show e diz: “essa música me entendeu completamente”, é isso. Quero criar essa sensação de pertencimento. Mostrar que algumas coisas que parecem estranhas, ruins ou capazes de nos engolir são, na verdade, humanas.
Under Floripa — Você saiu de Tubarão e veio construir parte dessa trajetória em Florianópolis. Como enxerga a cena catarinense hoje?
Déborah — Eu vim para Florianópolis justamente para ter mais contato com a cena cultural e musical. Em Tubarão eu já cantava em bares, mas queria conhecer novas referências, músicos e outro mercado.
E fui muito abraçada pela ilha. Pelos músicos, pelas casas que abriram espaço para o meu trabalho e pelo público. Sinto que os próprios artistas daqui se apoiam muito. Tenho também minha galera de Laguna, artistas que vieram de cidades menores e continuam crescendo juntos, acompanhando e apoiando o trabalho uns dos outros.
O que ainda sinto falta é de mais espaços para música autoral. Muitas vezes acabam sendo sempre os mesmos lugares recebendo esses projetos.
Existe uma galera que ainda não está nos grandes palcos e está tentando construir uma caminhada. Eu mesma faço música autoral há alguns anos, mas comecei a apresentar esse trabalho ao vivo recentemente. Para essa cena crescer, precisamos de mais lugares dispostos a receber artistas nesse estágio.
Under Floripa — Suas músicas têm desejo, tensão e provocação. Quando você está no palco, sente que o público realmente entra nesse lugar com você?
Déborah — Totalmente. E, para mim, é aí que acontece a mágica.
Sou muito intensa e visceral tanto na escrita quanto no palco. É o lugar onde consigo colocar tudo para fora da maneira mais espontânea e verdadeira possível.
Quando percebo que o público está sentindo comigo, vejo que não estou sozinha naquilo. Existe uma conversa, uma comunhão.
Para mim, esse é o auge. É isso que quero como artista: que as pessoas sintam as coisas comigo.
No fim, é isso que significa fazer música.
No fim das contas, Déborah Araújo parece pouco interessada em encontrar uma fórmula ou se acomodar em algum gênero musical. Entre o pop, a psicodelia, o teatro e as tantas referências que carrega, vai construindo um trabalho que não esconde suas contradições, inseguranças e desejos. E talvez esteja justamente aí o que torna sua música interessante: a disposição de se expor, experimentar e não entregar tudo mastigado ao ouvinte. Com um primeiro EP a caminho, Déborah ainda tem muita coisa para colocar para fora. E, numa cena que precisa cada vez mais de artistas dispostos a fazer música própria, vale a pena prestar atenção no que vem por aí.



