Under Floripa entrevista: Plebe Rude!

Under Floripa entrevista: Plebe Rude!

(Reprodução)

Nas semanas que antecedem o show de 40 anos do disco de estreia O Concreto Já Rachou em Florianopolis no mítico John Bull, o Underfloripa conversou por mensagens com os músicos André X (baixo) e Philipe Seabra (vocal e guitarra) sobre o mítico disco e como o mesmo soa tão atual quanto no seu lançamento.

Underfloripa: O disco “O Concreto Já Rachou” completa 40 anos nesse 2025, por que algumas músicas soam tão atuais?

André X – É impressionante — e ao mesmo tempo inquietante — perceber como um disco lançado há 40 anos, repleto de críticas sociais e políticas, continua atual. Temas como a desigualdade na distribuição de renda, a violência institucionalizada das forças de segurança, a censura disfarçada ou explícita sobre a produção artística, entre outros, ainda ecoa com força nas nossas realidades cotidianas. Essa permanência, longe de ser apenas uma coincidência histórica ou uma demonstração da genialidade nossa, também revela algo mais profundo: o quanto o processo democrático brasileiro ainda é recente e, em muitos aspectos, inacabado.

É importante lembrar que a redemocratização do Brasil, formalmente iniciada com o fim da ditadura militar em 1985, tem menos de 40 anos. Isso significa que o país ainda está construindo — ou tentando construir — as bases de uma democracia sólida, inclusiva e participativa. Uma democracia real, que vá além do direito ao voto, exige tempo, mas sobretudo exige coragem política. Coragem para enfrentar estruturas arcaicas de poder, para redistribuir recursos e oportunidades, para reformar instituições que perpetuam desigualdades e para garantir liberdade plena de expressão, inclusive quando ela incomoda.

As canções daquele disco permanecem atuais justamente porque muitas das feridas que elas denunciam continuam abertas. E isso é um sinal claro de que os avanços democráticos, embora importantes, ainda não foram capazes de transformar com profundidade as estruturas sociais e políticas do país. O que era denúncia ontem continua sendo realidade hoje, não por falta de consciência, mas por falta de transformação concreta, que ainda não rachou.

Portanto, ao ouvirmos essas músicas hoje, somos chamados não só à reflexão, mas também à ação. Elas nos lembram que a democracia não é um ponto de chegada, mas um caminho longo, que exige vigilância, resistência e ousadia para que se torne, de fato, um projeto coletivo de justiça e liberdade.

Underfloripa – O Brasil tem quase 40 anos da retomada democrática, porque ainda se conta nos dedos, as bandas ou artistas que são realmente políticos dentro da grande mídia? Que utilizam da sua arte para serem realmente panfletários?

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André X – Ao olharmos para os últimos 40 anos da música brasileira, percebemos uma mudança significativa no espaço ocupado pelas canções de cunho político, progressista e social. Se nos anos 1980 artistas com posicionamentos contundentes ganhavam visibilidade e mobilizavam multidões, hoje parece que esse espaço foi ocupado, em grande parte, por produções mais voltadas ao entretenimento imediato — letras descartáveis, refrões fáceis, festivais padronizados e multidões anestesiadas.

Essa transformação, no entanto, não se explica apenas por uma suposta mudança no gosto do público ou pela ideia de que os artistas “de hoje” seriam menos conscientes ou engajados. O que ocorreu, sobretudo, foi um afunilamento brutal no acesso aos meios de comunicação de massa. Nos anos 1980, apesar das limitações da época, havia uma certa espontaneidade: artistas independentes conseguiam furar o bloqueio, ganhar espaço nas rádios, nas televisões, nos festivais e até nos grandes selos. A pluralidade cultural ainda encontrava algumas brechas.

Hoje, com a hiperconcentração das mídias e das plataformas digitais, esse cenário mudou radicalmente. As rádios comerciais, por exemplo, tocam basicamente as mesmas faixas — resultado direto de acordos comerciais e da prática ainda viva do jabá, que impõe barreiras econômicas intransponíveis para a maioria dos artistas independentes. O mesmo acontece com as playlists dominantes nas plataformas de streaming, que funcionam muitas vezes como vitrines pagas. Ter uma música incluída em uma grande playlist pode custar caro, e os algoritmos favorecem o que já é popular, não o que é relevante.

Ou seja, o investimento necessário para ter um “sucesso” hoje é alto — e, nesse modelo, artistas com propostas críticas, políticas ou socialmente engajadas tendem a ser preteridos. Não porque o público não se interesse, mas porque esses artistas não se encaixam na lógica da indústria que busca a reprodução fácil do consumo, não a provocação ou o questionamento.

Isso não quer dizer que artistas progressistas não existam. Eles existem — talvez em número até maior do que antes —, mas estão relegados à obscuridade, à cena independente, aos nichos digitais, às margens da visibilidade. O sistema atual não lhes oferece o mesmo tipo de projeção que, no passado, era mais acessível, mesmo que ainda dentro de um contexto de disputa.

Portanto, o empobrecimento do discurso musical dominante não é um reflexo da escassez de pensamento crítico entre os artistas, mas sim das transformações estruturais nos meios de comunicação e distribuição da música, que passaram a favorecer aquilo que é economicamente mais rentável e politicamente mais inofensivo.

Underfloripa –  A arte é política?

André X – Arte é política, sim. E não apenas em sua forma mais explícita — como quando uma música denuncia a desigualdade ou uma peça de teatro critica o autoritarismo —, mas também em sua própria existência, em sua capacidade de expressar, provocar, questionar e transformar.

Toda arte carrega uma visão de mundo, mesmo quando ela parece “neutra” ou voltada apenas ao entretenimento. Escolher o que mostrar, o que esconder, a quem se dirige, como é produzida e onde circula — tudo isso são decisões políticas, conscientes ou não. Uma pintura que idealiza o poder, uma arquitetura que impõe hierarquias, um espetáculo que reforça estereótipos ou uma canção que silencia certas vozes: tudo isso tem implicações políticas.

A arte atravessa sentimentos. E os sentimentos — como indignação, empatia, desejo, esperança ou raiva — são catalisadores poderosos de mudança social. É pela emoção que a arte nos mobiliza: ela nos desestabiliza, nos provoca, nos faz pensar e, muitas vezes, nos empurra à ação. Uma escultura pode questionar a ideia de beleza imposta. Um prédio pode expressar a ideologia de um regime. Uma música pode inspirar uma geração. Uma intervenção urbana pode desafiar o uso privatizado da cidade. Tudo isso é política.

Portanto, afirmar que arte é política não significa reduzir a arte a panfleto, mas reconhecer seu poder simbólico, sua potência de intervir no imaginário coletivo, de abrir espaço para outras narrativas, de incomodar as estruturas e de oferecer alternativas. Em tempos de crise — política, ética, ambiental ou social —, a arte não apenas reflete o mundo, ela nos convida a transformá-lo.

Underlfloripa – Vocês desde o início, estiveram a margem de bandas da mesma época, apesar do sucesso do primeiro álbum, nem sempre tiveram o mesmo respaldo e suporte que os conterrâneos musicais da Legião ou Paralamas, a que vocês atribuem isso?

Philippe Seabra – Plebe de longe é a banda com a proposta menos comercial de todos os artistas da década de 80 que chegaram a disco de ouro. Realmente a trajetória da banda é impar dentro dos moldes de comercialização no Brasil, sem nenhuma música de amor, letra fácil ou banal. Na minha recém lançada autobiografia, “O Cara da Plebe”, relato muitos outros fatores que realmente atrapalharam a trajetória da banda, alguns infelizmente vindo de dentro, mas inegavelmente enquanto que a geração de gente fina, elegante e sincera dizia mais “sim do que não”, a Plebe dizia não; não as instituições, não ao status quo, não a repressão, não ao comercialismo. Mas pagou um preço alto por isso – mas foi justamente isso que fazia a Plebe a Plebe.

Também creio que é um pouco injusto comparar com dois fenômenos da música brasileira, Legião, pela genialidade do Renato Russo e Paralamas, pela abrangência que por ser das bandas mais “brasileiras” conseguiu ter uma carreira internacional e um repertório próprio impressionante. 

Pensando bem, olhando para a trajetória da Plebe mesmo com todos os percalços, o fato de ainda estar na estrada depois de 44 anos, 12 discos lançados e renovando seu público ainda com uma extensa obra ainda relevante – para mim é uma história de sucesso – um sucesso ímpar, mas sucesso.

Underfloripa – Como você enxerga a cena independente brasileira? Já que o rock não é mais tão maisntream quanto nos anos 80? Você acompanha bandas desse cenário? O que você acha dessa nova geração?

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Philippe Seabra – A música popular brasileira continua firme em todas as frentes, mas infelizmente poucos conseguem estar na grande mídia – uma grande tragédia na verdade. Eu mesmo produzi até hoje quase 40 discos independentes, mas poucos conseguiram ver a luz do sol, o que me entristece muito. Mas é possível comparar a cena de hoje com a cena da década de 80 em alguns aspectos singulares. Quando começamos em 1981, não existia mercado de música jovem (feita por jovens para jovens) – não existia nem o precedente de alguém da nossa geração a conseguir ter uma carreira. E foi nessa falta de perspectiva real de tudo aquilo “dar em alguma coisa” é que saíram algumas das canções mais emblemáticas da história da MPB. Foi a inocência e urgência que propeliu o movimento, não ambição ou dinheiro. Hoje em dia, mesmo com o advento das redes sociais, é muito difícil no meio do ruído que é a internet, artistas conseguirem uma carreira dedicada a sua arte, mas é justamente essa dificuldade que “separa o joio do trigo” inspirando dezenas de artistas realmente incríveis, que como a gente, dizem mais não do que sim e que vão a estrada mesmo sem saber se “vai dar em alguma coisa”. Resta esperar que eles consigam chegar ao grande público. Mais uma vez me entristece ver tanto talento relegado a margem.

Mas eu sinto falta de um pouco mais de posicionamento dentro da arte, coisa que nossa geração realmente deixou de lado pois o pouco engajamento que vejo, eu vejo em todos os lugares, em blog, entrevista, nos Facebook e instagrams da vida, MENOS na própria música. Mas para isso teria que comprometer a própria arte e nessa cultura de cancelamento – ninguém quer uma coisa dessas. São os algoritmos ajudando podar qualquer posicionamento dentro das canções e me perdoe o lugar comum, mas artista se expressa dentro através da arte. Se não, tudo fica insosso e oco. A canções resistem o teste do tempo, não entrevistas…

Mas existe esperança na nova geração, contanto que encontre um meio de expressar suas dúvidas, insatisfações e questionamentos sem precisar recorrer da “polêmica” forçada para chamar atenção. Continuo acreditando que talento e estrada é a maneira de se firmar.

O que me movia na época é a mesma coisa que me move hoje em dia. Urgência. E com um “U” maiúsculo, isso mesmo, bem grande para você. E espero isso de artistas da nova geração. Muita gente ainda acredita no bem que pode ser feito honrando suas escolhas de vida e lutam para o bem maior, com as armas que tem. Professores que recusam a se entregar ao sistema falido, médicos na rede pública que tentam salvar vidas apesar da falta de recursos. Bombeiros e policiais que arriscam as vidas todos os dias. Cuidadores de idosos e de crianças especiais. Essas pessoas não são movidas pela glória ou fama. Fazem o que acham que é certo, independente do prognóstico financeiro muitas vezes fadado. Agora feche os olhos e imagine um mundo sem essas pessoas.


E se você gostou da entrevista com essas duas lendas, não perca o show no próximo dia 31 de maio no John Bull Floripa.

Serviço:

  • Plebe Rude (Expirado) – 40 anos do histórico álbum "O Concreto já rachou"

    Florianópolis – SC

  • Data: 31 de maio, 2025
  • Local: John Bull Floripa
  • Endereço: Avenida das Rendeiras, 1046 – Lagoa da Conceição, Florianópolis – SC
  • Abertura das Portas: 20h00
  • Censura: 18 Anos
  • Garanta seu Ingresso
Luciano Vitor

Luciano Vitor

Formado em Direito, frequentador de shows de bandas e artistas independentes, colaborou em diversos veículos, como Dynamite, Laboratório Pop, Revista Decibélica, Jornal Notícias do Dia, entre outros. Botafoguense moderado, é carioca radicado em Florianópolis há mais de 20 anos.