A entrevista com Jo Mistinguett no Under Floripa revela a trajetória de uma artista inquieta, mergulhando em suas inspirações, desafios e experiências marcantes no cenário musical independente. Mistinguett compartilha um olhar único sobre a música eletrônica, abordando tanto as belezas quanto as complexidades de viver da música. Confira o papo na íntegra:
UF – A música eletrônica é cheia de subgêneros, não é algo linear. Como você vê o seu trabalho dentro desse universo gigantesco?
R: Essas vertentes do techno, EBM, industrial, electro, foram os estilos de música eletrônica que sempre ouvi desde os anos 90. Também existiam mais bandas de rock alternativo no mainstream. Acho que hoje em dia tudo é uma grande mistura de tudo, e enxergo meu trabalho dessa forma. Viajo do punk eletrônico ao industrial pop.
UF – Você já trabalha com música há bastante tempo, no quesito de lugares para tocar, estrutura, melhorou?
Faz tempo que eu não tenho tocado mais de forma consistente. Uma coisa que me desanimou é o fato de que muitos novos djs não se preocupam com uma pesquisa musical, e nem com a técnica da mixagem. De alguma forma a profissão foi desvalorizada de todas as formas. Sim, existem nichos com grandes nomes e grandes clubs com diversos djs, mas o underground (pelo menos aqui do meu ponto de vista) ficou quase inexistente. Eu aprendi a tocar tocando. Em todo o período que eu toquei, eu nunca tive um equipamento de dj. Hoje em dia isso é regra pra você tocar, pois muitos lugares não oferecem o equipamento, o dj tem que levar o seu próprio. Não acho que melhorou, acho bem o contrário. E junto a isso muitos clubs fecharam, e estamos em um momento de mudanças também na pista de dança.
UF – Muitos artistas e bandas de Curitiba, desde que você começou, largaram a música e outros tantos surgiram, você consegue enxergar alguma semelhança da cidade de 10 anos atrás e de hoje?
Acho que as coisas mudaram bastante. Muita gente continua na música de alguma forma, apesar do fato de que viver de arte não é algo fácil. Hoje em dia me parece que a academia forma mais artistas interessados em suas carreiras solo. Antes existiam mais duplas, trios, bandas. A forma de divulgar o trabalho também mudou, porque a internet gera uma certa visibilidade que muitas vezes é somente online. Eu comecei divulgando minhas músicas no MySpace em 2006. Essa relação com a internet foi intensificando e agora os artistas dependem dela pra mostrarem seus trabalhos. Isso com certeza alterou a realidade fora das redes. Ser artista hoje em dia é diferente do que era há 10 anos. Vejo semelhanças, mas vejo uma transformação também. Vamos adaptando.
UF – A sua música também é um instrumento político? Tem uma certa crítica fundamentada em algumas canções, apesar do formato. Eu pelo menos enxerguei isso, ouvindo o “Apokalipse Now”.
Eu acho que minhas músicas acabam se tornando políticas por que vem de uma insatisfação, uma não adaptação, uma rebeldia. Apokalipse Now é também uma análise sobre a forma que estamos vivendo – sem pensar muito em consequências – e o que isso causou. As letras são sinceras com o que eu estava vivendo no momento, é tudo bem visceral.

UF – Quais as bandas e artistas que te inspiram?
Muita coisa! Eu escuto de tudo. Depende o dia. Vou de Nina Hagen, Siouxsie, Depeche Mode, Prodigy, Juçara Marçal, Madonna, Ramones, Rita Lee, Roisín Murphy, Garbage, Portishead, Kumbia Queers, Grace Jones, David Bowie, Baiana System, Peaches, entre outros…
UF – Pra quem está querendo lançar um disco, um trabalho nos mesmos moldes que você lançou, o que você indicaria?
Preparar tudo com muito carinho, pois é um processo demorado, e que envolve muita gente. Um disco é algo que perdura o tempo, é uma história que fica registrada, reflete o contexto social de uma época. É um objeto nostálgico e raro.



