Homestyle Dinner Rolls (Utah, EUA)

Homestyle Dinner Rolls (Utah, EUA)

(Reprodução)

No meio do conservador estado de Utah, nos Estados Unidos, nasceu uma banda de nome curioso e energia transbordante: Homestyle Dinner Rolls. A dupla — às vezes trio — formada por Danny Kawai (baixo e vocais) e Jake Follette (guitarra e backing vocals) carrega uma sonoridade que passeia entre o rock alternativo, o pop-punk e ecos de grunge, sem medo de experimentar peso, melodia e humor em doses iguais.

O som do HDR é ao mesmo tempo familiar e fresco. Há riffs de guitarra com pegada clássica, baixo pulsante conduzindo as faixas, refrões que grudam e uma alternância bem dosada entre momentos mais pesados e passagens melódicas. O som segue os padrões estéticos do gênero, sem soar clichê ou como pastiche. É rock de arena comprimido num formato independente, feito pra funcionar tanto em estúdios de fundo de quintal quanto no palco de uma casa pequena — e, quem sabe, um dia em grandes festivais. Essa mistura dá às músicas um caráter autêntico e vivo, como se cada faixa fosse escrita pensando na experiência do show ao vivo.

Ouvir o single A Bit Too Heavy ou o EP Life Is Better é perceber como eles conseguem condensar a energia do palco em gravações cheias de vigor e personalidade.

E a banda vai além da música: eles também mantêm um podcast chamado Too Damn Loud, onde discutem música e cultura de forma aberta, sem medo de se posicionar. O HDR não se esconde politicamente — pelo contrário, lembram sempre que ser punk é ser questionador e político. Entre riffs e piadas, já fizeram críticas diretas ao presidente Donald Trump e ao status quo americano, reforçando que autenticidade também é não se calar diante do óbvio.

Mas não é só no som que o HDR se destaca. A presença deles nas redes sociais é quase uma extensão natural da banda: vídeos ácidos, piadas com fãs de Radiohead, clipes divertidos e um humor que conversa diretamente com a estética do rock e, principalmente, com o fandom das grandes bandas do gênero. É on brand e extremamente autêntico — aquele tipo de conteúdo (odeio essa palavra) que faz sentido, que não soa forçado.

E aqui vem a parte incômoda: por mais que seja genial o que fazem no TikTok e em outras plataformas, não deixa de ser sintomático que hoje uma banda independente precise se multiplicar em tantas frentes para existir. Não basta compor, ensaiar, gravar e tocar. É preciso editar vídeo, pensar em trends, alimentar algoritmos famintos que muitas vezes ditam se o público vai ouvir a música ou nem saber que ela existe.

E eles ainda fazem tudo isso enquanto mantêm seus empregos, equilibrando atribuições criativas e profissionais, ao mesmo tempo em que precisam se preocupar em como vão pagar as contas.

O problema não está no talento ou na criatividade de bandas como Homestyle Dinner Rolls, mas na exigência de que artistas se tornem um verdadeiro canivete suíço, acumulando funções que em outros tempos seriam divididas com gravadoras, selos ou assessorias. Enquanto isso, o grande público e a própria indústria se escondem atrás do conforto do algoritmo, entregando sempre o mesmo de sempre, raramente questionado.

Ainda assim, em meio a tudo isso, a banda se destaca. As músicas são boas de verdade, e o conteúdo que produzem não é só obrigação de mercado: é divertido, faz rir, conecta. Talvez essa seja a grande lição deles: mesmo num cenário desigual, em que a rede social parece maior que a própria música, ainda é possível usar o jogo a favor, sem perder a identidade.

Mesmo que punk pop não seja seu gênero preferido, a Homestyle Dinner Rolls merece alguns plays. Seja no streaming, ou nas redes sociais.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.