Fazia algum tempo que não escutava um álbum da Jeremias Sem Cão. A banda tem uma história bem bacana. Costuma unir poesia e música e saber tirar ótimos resultados dessa junção. Mas ao tentar fazer um trabalho mais pop, juntou tantas referências que tudo que a diferenciava das outras bandas e artistas, acabou jogando o grupo num limbo que descaracterizou toda aquela aura de banda diferente.
As 3 primeiras faixas, são muito bem produzidas, mas remetem a ” banda mór” de Santa Catarina, o Dazaranha.
E quando você junta tantas referências em um único trabalho sem uma unidade ou coesão, o pirão desanda.
Tem referências de rock dos anos 70, riffs rockeiros clichês, cadência irregular, os já supracitados da Dazaranha, letra estranha e isso tudo em uma única faixa, ” Todos da Cidade” e nem citei aquela pegadinha anos noventa…
É bacana você ter referências, mas jogar tudo numa panela sem o devido tempero, faz o caldo azedar.
Aí vem ” Zumbi É Rei”. Fiquei sem entender. Canta em outra língua, sobre Zumbi, uma música que atira para todos os lugares, mais uma vez com a supracitada banda como referência, e que não cabia aqui, aqui caberia um afoxé, um ritmo afro, sei lá, menos essa pegada praia/Caribe.
O engraçado é que ” Black Neon”, apesar de ter a participação de Moriel Costa (de qual banda?), ficou um pop radiofônico pra caramba! Se a ideia era soar como outra banda, a faixa de ponto de partida, deveria ser essa.
A voz de Maurício Peixoto, é algo que também engrandece juntamente a guitarra de JP, membro do grupo e vocalista.
Até a gaita trazida na faixa é bacana.
Não faria falta, mas traz uma roupagem hippie.
O problema do novo trabalho da Jeremias Sem Cão, não é apenas um, mas vários problemas. Querer juntar tantas influencias e referências em um único disco ou de repente ter Creedence, pop bublegum, Ronettes.. é muita coisa ao mesmo tempo!!
A produção é boa. Tudo soa de maneira que várias canções tocariam em rádios, só que não existe unidade, não existe coesão, é tudo ao mesmo tempo agora.Mas até o filme fez sentido no final.
Passa para outra faixa, vem Raul Seixas revisitado em “Opinião Reciclada”, depois dessa enxurrada de informações.
E para deixar um trabalho que foi bem produzido tão dispare, nada pior do que querer soar como outra banda.
Jeremias Sem Cão sempre teve um mote, um estilo que não copiava tantas coisas e tantas referências, mas se perdeu ao querer tudo ao mesmo tempo no mesmo disco.
Da mesma maneira que que o produtor acertou em deixar o disco radiofônico, acertou também em “Silêncio Eloquente” e ” Cruzessouseana”, a alma da banda que une poesia, Beto Guedes e a música se encontram nas duas faixas.
Mas na geleia geral, o grupo errou mais que acertou.
E fica aquela vontade de ouvir “Metaphorai” e ” Quando Morrem”, do primeiro trabalho lá de 2006…
Volta da Brisa – Jeremias Sem Cão
Gravadora: Independente
Ao juntar todas as influências possíveis em poucas faixas, a banda se perdeu em um flerte radiofônico possível.
