Under Floripa Entrevista: Monte Resina (SC)

Under Floripa Entrevista: Monte Resina (SC)

(Reprodução)

No cenário instrumental brasileiro, a Monte Resina surge como um nome que instiga e desafia o ouvinte ao apostar em composições sem vocal, construindo atmosferas densas e emocionais que remetem à sensibilidade de gigantes como Russian Circles e God is an Astronaut.

O trio apresenta um som marcado pelo peso do metal alternativo, nuances de shoegaze e post-hardcore, onde os arranjos sugerem narrativas e imagens, mesmo na ausência de palavras.

Com uma trajetória que começou flertando com o stoner rock e seguiu por caminhos próprios, a banda oriunda de Florianópolis se consolida pela capacidade de criar música intensa, repleta de texturas e afeto, mostrando que o instrumental pode ser tão expressivo quanto qualquer letra.

Nesta entrevista exclusiva ao portal Under Floripa, o Paulo, guitarrista da Monte Resina, compartilha as inspirações e desafios, além de falar sobre seu último trabalho, o sensacional Nem Era (leia a resenha aqui), que foi disponibilizado nas plataformas digitais e será prensado em vinil. Boa leitura!

UF – Como vocês definiriam a identidade sonora da Monte Resina e como ela evoluiu desde o início da banda?

Inicialmente, por volta de 2011, a ideia era formar uma banda de stoner rock com vocalista. Chegamos a gravar algumas demos instrumentais das músicas compostas naquela época, mas elas nunca foram lançadas.

No entanto, devido a prioridades individuais de cada membro, não conseguimos dar continuidade ao projeto com aquela formação. Ainda no estágio embrionário da banda, o vocalista optou por sair para se dedicar às empresas que estava criando. Não procuramos um substituto com muito afinco, e os vocalistas talentosos que conhecíamos não puderam ou não quiseram se juntar à banda. Além disso, ninguém no grupo tinha interesse em escrever letras ou cantar.

A saída do vocalista foi angustiante, pois ele era (e ainda é) um dos meus melhores amigos. Havia também um sentimento de que, se não fosse ele o vocalista, não deveria ser ninguém. Já faz muito tempo, mas acredito que foi nesse momento que a semente da configuração de banda instrumental foi plantada.

Somado a isso, por volta de 2012, fomos assistir a um show do Macaco Bong no UFSCtock. Eles haviam acabado de lançar o álbum ‘This is Rolê’. Foi um show incrível que deixou claro que um vocalista não era uma condição para fazer um som pesado.

Em seguida, com a guinada para o instrumental, naturalmente começamos a adicionar elementos de outros gêneros à identidade sonora da banda, como metal alternativo e grunge. Hoje, acredito que outros gêneros também permeiam nosso som, como rock progressivo, shoegaze, post-hardcore, entre outros.

UF – Na visão de vocês, quais são os principais desafios e liberdades desse processo, e até que ponto a escolha pelo instrumental influencia ou limita a criação artística dentro da banda?

Sobre desafios, do ponto de vista de compor, acho mais desafiador compor música com voz.

Sobre liberdades, apesar de ter pouca experiência com tocar/compor com banda com vocal, talvez não haja tanta diferença? Ressalvadas questões relativas à técnica, vejo que os limites nas composições são postos pelo próprios envolvidos, não por algo da natureza da música instrumental ou vocalizada.

UF – O que inspira os temas e atmosferas das músicas da banda? Existem histórias ou imagens específicas por trás das composições?

Tentamos incorporar nas músicas aquilo que mais gostamos de ouvir. O resultado final é fruto de muita tentativa e erro, e um pouco de sorte. Para nós, o principal critério para decidir o que aproveitar e o que descartar nas composições é o afeto que o som proporciona.

Quanto a histórias e imagens, até agora elas nos serviram apenas para dar nomes às músicas e aos discos.

UF – Quais foram os momentos mais marcantes da trajetória da Monte Resina até agora, seja em shows, gravações ou parcerias?

Em 13 ou 14 anos, embora a Monte Resina, na maior parte do tempo, não tenha ocupado um lugar central na minha vida (e acredito que na dos meus colegas também), tivemos muitas histórias, tanto felizes quanto tristes. Posso falar do que foi marcante para mim. Além do que já expliquei nas duas primeiras questões, a produção do primeiro álbum ‘EP’ (ou ‘Monte Resina’) foi muito relevante. Foi o primeiro álbum da nossa vida, feito em casa, sem dinheiro (eu era estudante e não trabalhava na época), e ajudou a materializar a existência da banda, abrindo portas para realizarmos vários shows aqui na região de Florianópolis.

A produção do segundo álbum (nosso primeiro ‘full length’ – ‘Aluado Bulimor’) também foi marcante, não só por ter sido o primeiro disco completo da banda, mas também por ter sido a primeira gravação profissionalizada, em estúdio, com bateria de verdade, tocada por um baterista de verdade, e com a confecção de mídia física (CD). Também guardo uma boa lembrança de um dos primeiros shows que fizemos, em um estúdio de tatuagem. Foi a primeira e uma das poucas vezes em que toquei e me senti curtindo a festa tanto quanto quem estava ali. Nem sempre é divertido tocar ao vivo.

Além disso, tocar com Macaco Bong e Truckfighters foi memorável, pois são duas grandes referências para mim. Todas as despedidas ou trocas de integrantes foram tristes. Algumas foram um tanto dramáticas, inclusive.

Há mais histórias, mas por agora, estou satisfeito em compartilhar essas.

UF – O segundo álbum de vocês, lançado no primeiro semestre, tem recebido elogios e vem sendo muito bem recebido pela mídia especializada. O que vocês podem comentar sobre ele e como a banda está aproveitando a repercussão positiva?

Alguns amigos e conhecidos nos disseram que gostaram do disco. Em relação à mídia, fiquei sabendo de dois canais, além do de vocês. Todos os três elogiaram o material, o que nos deixa muito felizes.

Nesse momento, estamos finalizando a arte do álbum para prensar o disco de vinil.

Sobre shows, não estamos realizando no momento. Futuramente, acredito que possamos nos organizar para tocar ao vivo novamente, mas precisaríamos de um quarto integrante para executar as músicas do ‘Nem Era’, que possuem duas guitarras na maior parte dos trechos. Até daria para arranjar esses novos sons para tocar em trio, mas eu, particularmente, estou mais interessado em dividir a função de guitarrista, o que significa menos responsabilidade e mais diversão.

Under Floripa Entrevista: Monte Resina (SC) 2

Agradecemos à Monte Resina pela disponibilidade e generosidade em compartilhar suas histórias, processos criativos e reflexões com o portal Under Floripa. Sinceramente? É inspirador conhecer mais de perto a trajetória de uma banda que desafia formatos e aposta em novas formas de expressão!

Frederico Di Lullo

Frederico Di Lullo

Redator publicitário, letrólogo, jornalista & fotógrafo de shows, nasceu na Argentina, coleciona vinil, é fã incondicional de música e um exímio apreciador de artes degeneradas.