Under Floripa Entrevista: Marrakesh (PR)

Under Floripa Entrevista: Marrakesh (PR)

(Reprodução)

Com uma trajetória que já ultrapassa uma década, a Marrakesh segue firme como um dos nomes mais consistentes e inventivos do rock alternativo brasileiro.

Nascida em Curitiba em meio à efervescência do cenário independente, a banda construiu seu caminho com experimentação, colaborações e um olhar atento ao que acontece dentro e fora do país.

Entre passagens por festivais internacionais, parcerias com selos de peso e um novo álbum cantado em português, o grupo mostra maturidade sem perder a inquietude criativa que marcou seus primeiros dias. Confira nossa entrevista exclusiva:

UF – A Marrakesh nasceu em Curitiba em 2014, numa época de efervescência do cenário independente. Quais foram as principais motivações que impulsionaram a formação da banda e como vocês enxergam esse início olhando para trás hoje?

Esse foi um momento literalmente formativo pra gente, por ter saído do ensino médio e já entrado na faculdade de música em Curitiba kk, parecia o caminho natural montar uma banda e desenvolver em conjunto um processo de experimentação e pesquisa artística. Muita gente talentosa que admiramos fazia parte desse grupo de convívio, desde bandas mais antigas quanto bandas que como a gente tinha começado naquela época. Tinha um circuito cultural underground bem definido e a gente teve a sorte de estar exposto ao que estava acontecendo ali na época. A gente enxerga esse recorte temporal com muito carinho e até uma certa saudade haha.

Crédito da foto: Gustavo Baez

Crédito da foto: Gustavo Baez

UF – Vocês destacam a colaboração coletiva na criação das músicas. Como é a dinâmica interna da composição em grupo e de que forma as contribuições individuais dos integrantes aparecem nas músicas?

Sempre entendemos que não dividimos 100% as mesmas referências, e normalmente seguimos uma regra clássica de quem escreve, canta. Como sempre foi assim e diversas outras bandas seguiam a mesma dinâmica (Beatles…….) tivemos sempre, seja de forma voluntária ou não haha, um cuidado com as criações e expectativas de cada um para cada obra. Nesse último álbum foi um pouquinho diferente porque a gente de fato vestiu a camisa respectivamente de cada instrumento, então as colaborações e ideias eram um pouco mais organizadas e objetivas, acredito que foi um dos motivos da gente ter conseguido finalizar o álbum no tempo e condições que tínhamos. Outro detalhe muito importante foi que a gente sempre teve pessoas muito talentosas dentro do processo de gravação e produção, no primeiro álbum com o Gustavo Schirmer e agora nesse último com o Roberto Kramer e o Leonardo Tows.

UF – A participação no Primavera Sound (Barcelona, 2017) e a assinatura com a Balaclava Records (2018), foram consideradas divisoras de águas para a banda. De que forma experiências internacionais e uma maior distribuição influenciaram artisticamente e abriram novas perspectivas dentro e fora dos palcos?

O impacto sempre vem pra gente nos lugares de troca. Vimos os shows de artistas/bandas que estavam sendo referência pra gente naquele momento e definitivamente isso afetou a direção do primeiro álbum. A ida pra lá em 2017 já foi inclusive com a parceria da Balaclava, que foi muito importante pra gente se estabelecer num contexto cultural agora não só em Curitiba mas em São Paulo também, com todas as suas oportunidades e pessoas dividindo objetivos e gostos. Artisticamente essas mudanças serviram de incentivo acredito, apesar de ainda ser um período formativo, sentíamos cada vez mais necessidade de se conectar com o que estava em volta, sejam outros projetos artísticos ou simplesmente pessoas de outras áreas que se conectaram com a nossa música. As mudanças que ocorreram artisticamente sempre tiveram o objetivo de expressar sinceramente a nossa visão estética e contextual e também de fazer as pessoas se conectarem, é a tal da troca que a gente sente, existe uma retroalimentação desses elementos que pode ser muito positiva.

Começar

UF – O terceiro álbum (Marrakesh, lançado pela Balaclava Records), marca uma virada ao priorizar letras em português. Como foi o processo criativo e emocional dessa transição de idioma, e como isso influenciou a identidade da banda?

O idioma sempre foi um tema que a gente quis explorar desde o começo da banda, mas depois do lançamento do segundo álbum, o clima pós pandemia deixou a gente numa certa necessidade de adaptação, visto que os planejamentos e ideias que a gente tinha até então construído acabaram sofrendo diversas mudanças e frustrações. Depois desse respiro a gente entendeu que se for pra fazer outro álbum, deveria ser feito em português. Naturalmente a sinceridade e a literalidade as vezes que o português traz acabou refletindo na sonoridade mesmo, e principalmente na nossa organização criativa onde assumimos de fato o papel de banda como era no começo, se distanciando de elementos eletrônicos e deixando os integrantes em posições mais convencionais e definidas. Acreditamos que isso nos aproxima de quem vai ver o show ou escuta as músicas em casa, o que no fim sempre foi o objetivo.

UF – Em um momento de consolidação e maturidade, como vocês enxergam o espaço do rock alternativo e da música experimental no Brasil atualmente, e que conselhos dariam a bandas que desejam trilhar uma trajetória semelhante?

Estamos bastante animados, sempre tivemos sorte de ter muita gente talentosa em volta e dessa vez não é diferente. Então de fato existe um clima otimista até pelo que estamos tendo de resposta com esse último álbum. Sobre conselhos, pra gente é até meio irônico se colocar nessa posição sabendo de tudo que aconteceu nesses últimos 10 anos de projeto hahaha mas algo que sempre fez sentido pra gente foi não ter medo de fazer algo que você genuinamente acredita, mesmo com dúvidas e questionamentos.

UF – Na iminência de uma turnê pelo Sul (Curitiba, Joinville e Blumenau), não teve Florianópolis no roteiro de vocês. Podemos aguardar vocês ainda este ano? (NDR: A TURNÊ ACONTECEU NO ÚLTIMO FINAL DE SEMANA DE JULHO)

O final de semana acabou ficando curto mesmo haha, mas sim adoraríamos ir para Florianópolis ainda esse ano! Sempre tivemos muito carinho pela cidade e não vemos a hora de estar aí novamente 🙂

Entre memórias afetivas do passado e planos concretos para o futuro, a Marrakesh reafirma seu compromisso com a música feita de forma genuína e coletiva. Com o novo disco circulando, uma turnê no Sul e o desejo de voltar a Florianópolis ainda em 2025, a banda segue conectando pessoas e histórias por meio de sons que traduzem seu próprio tempo

Frederico Di Lullo

Frederico Di Lullo

Redator publicitário, letrólogo, jornalista & fotógrafo de shows, nasceu na Argentina, coleciona vinil, é fã incondicional de música e um exímio apreciador de artes degeneradas.