Entrevista concedida no Confraria das Artes em Florianópolis, no dia 03 de setembro de 2006 aos colaboradores Jerônimo Rubim e Rafael Rubim.
A casa noturna estava cheia, e curiosos fãs circulavam em volta da mesa do escritor Luiz Fernando Veríssimo, que veio à Florianópolis no dia 3 de setembro para apresentar-se com a sua banda de jazz, a Jazz6. Alguns arriscavam-se e tentavam um diálogo com o calmo (também) músico, ou simplesmente o bajulavam a ponto de entregar-lhe presentes caros. Ele apenas sorria discretamente, de certa forma indiferente.
E foi nesse clima, cercado por tietes, que o filho de Érico Veríssimo concedeu uma entrevista exclusiva ao site Underfloripa.com. Enquanto decidia com o Chef qual o prato para o jantar ou atendia beldades afoitas por uma foto, ele respondeu perguntas sobre música, política, a realidade brasileira e o início da carreira como jornalista. E sempre muito calmamente. A figura passiva que se apresentou ao público diverge muito daquela que escreve crônicas satíricas e de grande imaginação. Durante a entrevista foi impossível não pensar que Veríssimo estava, na verdade, escrutinando o local à procura de novos hilariantes personagens para seus livros.
Under: O Sr. morou vários anos nos EUA. Qual foi a influência da cultura norte-americana no jovem Luis Fernando Veríssimo?
LFV: Olha, pois é, eu fui a primeira vez para os EUA quando tinha sete anos idade, então praticamente me alfabetizei em inglês. A primeira escola que frequentei foi lá. Depois morei de novo dos dezesseis aos vinte anos. Também é uma fase de formação, adolescência e tal. Então a influência da cultura americana em mim é muito grande. Eu sempre li muitos autores americanos, sempre gostei muito da música americana, do humor americano…
Under: A música principalmente, pelo jazz, e ter visto grandes nomes como Charlie Parker e Dizzy Gillespie tocando ao vivo…
LFV: Exato, é… Eu já gostava de Jazz quando fui para os EUA com dezesseis anos, e foi lá que eu aprendi a tocar o sax, e vi todos esses grandes, o Parker, o Gillespie, essa turma toda eu vi tocar. O próprio Miles Davis eu vi tocar naquela época. Eu estou meio desatualizado em matéria de jazz, e continuo a gostar dessa turma mais antiga…
Under: E de que tipos de músicas o senhor gosta?
LFV: Eu gosto muito de música brasileira, música popular brasileira, samba e tal. Gosto de música erudita também, barroca principalmente… Sendo boa música eu gosto.
Under: Uma das suas primeiras profissões foi o jornalismo. Ainda criança, criou um jornal familiar, o “Patentino”, e depois trabalhou para a Zero Hora, e foi mais tarde, já com trinta anos de idade, que o senhor descobriu essa vocação para a literatura. Como foi esse processo?
LFV: (risos) É, o Patentino foi uma brincadeira de criança, mas depois eu só comecei a trabalhar com jornalismo com trinta anos, na Zero Hora, naquela época ainda não precisa ter diploma de jornalista para se trabalhar em jornal. Comecei como estagiário, mas até então não tinha nenhuma idéia de ser escritor ou jornalista e tal, mas daí quando comecei a trabalhar em jornal, se revelou uma certa vocação para o gênero… Foi um pouco tarde, mas foi…
Under: E influenciou muito o fato de ser filho do grande Érico Veríssimo? Houve uma pressão para seguir a carreira?
LFV: Não, na verdade não… Bem, talvez inconscientemente sim, pelo fato de eu não ter nenhuma ideia de ser escritor, e se ele não fosse talvez eu nem seria também… Mas, depois que eu comecei é claro que o nome ajudou, mas não chega a ser nenhum tipo de pressão não…
Under: O seu texto é predominantemente cômico. De onde veio essa tendência satírica para a escrita, a veia cômica?
LFV: Não sei, é o meu gosto pelo humor… Apesar de não ser uma pessoa naturalmente humorística, engraçada, eu sempre tive gosto pela leitura de humor, pelo cinema de humor, e também acho que pelo fato de ter vivido nos Estados Unidos, meu humor é muito influenciado pelo humor americano…
Under: O senhor é sabidamente uma figura tímida, mais recatada, como é essa relação com o sucesso, a fama, essa adulação por todos os cantos que vai…
LFV: Não, na verdade não é tanto assim, né? Não é o nível de uma estrela de televisão… (risos) Mas é sempre bom, tem o lado bom, há sempre uma manifestação de carinho das pessoas, mas também pra que não é muito extrovertido, às vezes é difícil, ter que responder ao assédio das pessoas, às manifestações de carinho… Mas a gente acaba sempre aceitando, porque é uma manifestação de carinho…
Under: Bom, dando um tom mais grave à conversa, qual a sua visão no momento do Brasil e dos brasileiros?
LFV: Bem, estamos em um momento difícil, politicamente difícil, não sabemos pra que lado vamos… Eu nunca escondi minha simpatia pelo PT, pelo Lula, e vou votar de novo no Lula, apesar de uma certa desilusão com o governo do PT…
Mas acho que a gente ainda deve dar um crédito, pra ver se o partido pode fazer alguma coisa diferente pelo país. Estou um pouco desiludido, mas com bastante esperança ainda.
Under: O senhor ainda acredita no PT como partido e no Lula, ou só na figura do presidente…?
LFV: Não, acho que teria que dar um crédito de confiança, apesar da desilusão. Não sei se eu diria que acredito ainda no Lula ou no PT, mas acho que não é a hora ainda de abandonar o barco.
Under: A simpatia com o PT vem pelas administrações do partido em Porto Alegre?
Under: Não, acho que vem de algumas convicções minhas, que são antigas, e de certa maneira o PT me pareceu ser uma esquerda viável para o Brasil, vamos dizer assim… As administrações do PT em Porto Alegre foram boas, não foram ruins, mas isso não tem muito a ver não.
Under: Em um recente ensaio para a revista Carta Maior, o senhor escreveu que se um ficcional arqueólogo no futuro encontrasse uma carta sobre o Brasil, o conteúdo da carta diria que “os anos de paciência dos brasileiros com os governos corruptos acabaram”. O senhor realmente acredita em alguma revolução do povo brasileiro contra nossos governantes?
LFV: Essa situação do país de desigualdade, de injustiça social, é uma coisa histórica, vem desde as caravelas, e até que ponto o povo vai aguentar, tolerar isso? Acho que de certa maneira a eleição do Lula foi uma manifestação de impaciência do povo. E o Lula está sendo uma desilusão, mas e depois do Lula, o que é que vem então?
A gente sempre confia muito na tal índole pacífica do povo brasileiro, mas até quando vai durar isso? As desigualdades continuam, a injustiça continua, a má distribuição de renda continua… Acho que o grande perigo aí é o povo começar a duvidar da própria democracia, acho que é um grande risco.
Enquanto existe a desilusão com o governo, ou com uma pessoa, tudo bem, mas quando se começa a duvidar do próprio processo democrático, quando se começa a pensar em uma solução de força, aí é muito perigoso…
Under: E qual o papel da juventude na sociedade de hoje? O senhor acha que esta é uma geração omissa, não-participativa e que ideologicamente não tem um norte? Qual a atitude a ser tomada em relação aos jovens?
LFV: É, obviamente a juventude de hoje, se comparada com a juventude de alguns tempos atrás que tinha mais participação política, mudou bastante. Mas eu acho que os jovens estão tentando se informar, de uma maneira ou e outra, e o importante é eles estarem bem informados e não se alienarem.
Mas certamente a participação política da juventude, comparada ao que era há alguns anos, diminuiu bastante.
Under: Para terminar, o senhor conhece bem Florianópolis?
LFV: Não posso dizer que conheço muito bem, mas tenho vindo várias vezes para cá, e gosto muito daqui. Venho com muito prazer…
Under: Algum local preferido?
LFV: Não, não. Mas gosto do Box… como é mesmo? Isso, o Box 32! Das praias, já fui mais de uma vez no Costão do Santinho… E o ambiente que Florianópolis tem… É uma cidade pequena, e ao mesmo tempo tem uma vida cultural bem animada… Eu gosto muito daqui.



