Em menos de um ano de estrada, a Cacofonia já deixou claro que não veio para ocupar um espaço discreto ou secundário na cena underground de Santa Catarina. Formado por Sofia (vocais), Marcela Brito (bateria) e Anna Freitas (guitarra), o trio é a síntese analítica de música e protesto, carregando no peito a urgência de uma geração jovem. Resistência? Raiva? E se for ambos?
“Desde o início, a proposta foi clara: uma banda formada apenas por mulheres, com letras de contestação e raiva”, lembra Sofia.
A ideia de canalizar tudo na música surgiu quando ela mergulhou no feminismo e no hardcore, inspirada por nomes como Bikini Kill e Bulimia. Foi então que convidou Marcela, que aceitou o desafio de trocar a guitarra pela bateria (e surpreendeu pela rápida evolução). Anna entrou em seguida, trazendo novas influências à sonoridade.
Punk Rock em terra conservadora
A Cacofonia nasceu em Joinville, a maior cidade de Santa Catarina, marcada por sua tradição industrial e um conservadorismo enraizado. Para o trio, esse cenário é combustível para compor.
“Estar em um ambiente marcado pelo trabalho incessante e pela predominância de ideais neoliberais e até fascistas impulsiona ainda mais a necessidade de escrever músicas de resistência”, explicam.
Se por um lado falta incentivo cultural, por outro a cena underground encontra refúgio em espaços como o Hangar 7, onde punk, hardcore e metal resistem. É nesse choque entre repressão social e rebeldia cultural que a banda encontra sua voz.

Autenticidade como segredo
Em pouco tempo, a Cacofonia conquistou os palcos, mas antes já eram ativas redes sociais. Inclusive, antes mesmo de lançar músicas oficialmente, já possuem uma base sólida de fãs no TikTok e no Instagram.
“O segredo tem sido a autenticidade: falar de pautas reais, mostrar o dia a dia da banda e usar a linguagem da nossa geração”, afirmam.
Essa presença digital ajudou a conectar o trio a uma juventude que talvez nunca tivesse ouvido punk, mas se encontrou nas mensagens feministas e políticas do grupo. E esse fenômeno, sem sombra de dúvida, não deve ser ignorado.
Ir contra a corrente, ousar e não se importar com o que outras pessoas vão dizer, sendo minoria, é um ato revolucionário e contracultural bem evidente.
Ser mulher no punk hoje
Ainda é raro ver bandas inteiramente formadas por mulheres no punk brasileiro. Para a Cacofonia, isso significa tanto enfrentamento quanto inspiração.
“A gente enfrenta diariamente misoginia nas redes e até comentários depreciativos de músicos de outras cidades. O fato de termos carinha de bebê assusta muito marmanjo de 40 anos”, ri Sofia.
“Mas o mais importante é receber mensagens de pessoas que se sentem inspiradas a criar suas próprias bandas, de jovens que se sentem acolhidos e representados. Isso é nossa maior conquista até agora.”

Influências e referências
A principal inspiração da banda é a veterana Bulimia, que abriu caminho para o punk feminista no Brasil. Dead Fish, Mukeka di Rato e Charlotte Matou um Cara também marcam presença como influências nacionais.
Nas referências internacionais, a lista é extensa: Refused, My Chemical Romance, Taking Back Sunday, Pierce the Veil, Sepultura e Crypta.
Um caldeirão sonoro que reforça a diversidade do trio, mas que escala à força de 3 acordes simples, crus e diretos.
(Primeiros e) Próximos passos da banda Punk Cacofonia
Um dos momentos mais marcantes da curta trajetória foi dividir palco com Eskröta, Black Pantera e Surra em Blumenau/SC.
“Foi a prova de que todo nosso esforço em compor, ensaiar e construir presença digital já vem rendendo frutos”, contam.
Agora, a banda se prepara para um novo capítulo: o lançamento do primeiro EP, previsto para 23 de outubro, com três faixas autorais e um clipe. Mas os planos não param por aí:
“Queremos ampliar nossa circulação em outras cidades e estados, criar conexões com mais bandas feministas e de minorias, sempre mantendo o ativismo dentro e fora dos palcos.”
Em suma, a banda Cacofonia é a prova de que a fúria juvenil, quando canalizada, pode transformar um cenário. Em Santa Catarina, uma terra onde o punk sempre sobreviveu em resistência, o trio de jovens chega como força de renovação: mulheres, inquietas, inconformadas e dispostas a provar que não é sobre o barulho em si, mas o ruído que pode chocar a partir da música feita como ato de pertinácia.



