Desde os tempos de Macaco Bong, lá nos primórdios dos anos 2000, Ynaiã Benthroldo é um dos nomes que mais se movem (no sentido literal e metafórico) dentro da música independente brasileira. Filho de cantor, baterista de formação e produtor por vocação, ele ajudou a moldar a cena que brotou do circuito Fora do Eixo e que, anos depois, faria o Brasil olhar para dentro e ver a força das bandas que resistiam fora dos grandes centros.
Hoje, à frente das baquetas do Boogarins, banda goiana que rodou o mundo com seu rock psicodélico, Ynaiã carrega na bagagem muito mais que viradas precisas: ele traz visão, inquietude e uma autocrítica rara. Conversamos com ele sobre o novo disco da banda, o ato de cantar, o peso de viver da arte e o retrato da cena independente atual que, segundo ele, é ao mesmo tempo fértil e exaustiva.
“Nunca me senti cantor, mas acho que estou chegando lá”
Quem conhece o Boogarins associa a voz de Dinho Almeida como marca registrada da banda. Mas no último disco, quem abre os trabalhos é Ynaiã, cantando. E o curioso é que essa virada veio quase por acaso.
“Foi um desafio muito grande pra mim. Os meninos sempre me incentivaram a cantar, mas eu nunca me senti nesse lugar de cantor, apesar de ser filho de um. Acho que de uns anos pra cá, especialmente depois da pandemia, comecei a experimentar mais, gravar umas coisas em casa e me sentir um pouco mais confiante.”
A faixa “Bacuri”, que nasceu de uma demo caseira acabou não só entrando no álbum, mas abrindo o disco e batizando o trabalho.
“Era a última música a ser gravada. Eu nem achava que ela tinha muito a ver com o resto, mas no fim fez todo sentido. Quando vi, os meninos tinham decidido que seria o nome do disco e a primeira faixa. Eu tava viajando e recebi a mensagem no WhatsApp com a ordem das músicas e o nome. Fiquei feliz demais. Foi uma surpresa boa e um baita incentivo pra continuar explorando esse lado.”
“Hoje é muito mais difícil ser banda independente”
Ynaiã fala com a segurança de quem viu o início de tudo, quando MySpace e Tramavirtual eram as plataformas do momento, e festivais como Grito Rock e Calango criavam pontes entre bandas de norte a sul. Mas também fala com a lucidez de quem entende que, apesar da tecnologia, as condições para viver de música pioraram bastante.
“Lá no começo dos anos 2000, o legal era tocar. A gente passava horas ensaiando, se preparando pra fazer um bom show. E isso fez o Macaco Bong crescer muito rápido, porque quando a gente começou a se apresentar já tinha uma identidade. Era uma época de efervescência: surgiam festivais, blogs, programas de TV, e a cena independente tava se conhecendo.”
Com o tempo, tudo mudou.
“Hoje o papel tá invertido. A galera lança música antes de ter banda, antes de saber o que quer dizer. É tudo muito apressado, muito baseado em ansiedade e comparação. Na nossa época, a gente não esperava ganhar dinheiro com a música, a gente queria tocar, viajar, conhecer outras bandas. Agora, parece que o sucesso vem antes da identidade.”
E o diagnóstico é direto:
“É muito mais difícil ser banda independente hoje. Os custos pra excursionar são absurdos, a estrutura piorou, os festivais diminuíram e o público é mais difícil de atingir. A internet prometeu democratizar, mas a disputa ficou mais cruel. As ferramentas estão aí, mas a briga por atenção é desumana.”

“Tocar duas vezes por ano em Floripa? Tomara que vire rotina”
O Boogarins voltou recentemente a Florianópolis, e o músico celebra o fato como um luxo raro.
“Floripa foi uma das primeiras cidades que a gente tocou com o disco novo, e foi um show incrível. Eu adoro a cidade, já toquei aí várias vezes com o Macaco Bong, e sempre tive experiências muito boas. Fico feliz de poder voltar mais de uma vez no mesmo ano. Geralmente isso só acontece em São Paulo, por causa da estrutura e do público. Mas seria lindo poder repetir isso em outras cidades.”
“Viver da arte é privilégio e também resistência”
Perguntado sobre o papel político e social do artista hoje, Ynaiã não cai no clichê: ele reflete com os pés no chão.
“Acho que viver de arte é resistência, sim, mas também é privilégio. Porque tem muita gente ralando 14 horas por dia em algo que não ama, e nós conseguimos viver do que gostamos. Isso é raro. Trabalhar com cultura num país que desvaloriza tanto o simbólico é, de certa forma, remar contra a maré.”
Ele também fala sobre a necessidade de uma educação sensível, que forme pessoas mais criativas e conscientes:
“A arte ainda é vista como supérflua. As pessoas acham que é fácil o que a gente faz, mas o curioso é que, nos momentos de lazer delas, é arte que elas consomem. Acho que falta formação. Se todo mundo tivesse espaço pra desenvolver seu lado artístico, a gente teria uma sociedade muito mais equilibrada e com mais empatia.”

“Zerar o Brasil e depois levar o som pra Ásia”
Boogarins já cruzou oceanos, mas Ynaiã ainda tem uma lista de desejos.
“O sonho é zerar o Brasil primeiro. A gente ainda não tocou em Porto Velho, São Luís, Teresina e Boa Vista. E eu, pessoalmente, só não toquei em São Luís, todas as outras capitais já fui. Depois disso, queria muito ir pra Ásia. Tenho curiosidade de ver como a nossa música chega lá, como o público reage, trocar essa energia. Nosso trabalho é isso: levar amor e sinceridade pra onde der.”
“Queria fazer um som com o Jorginho Gomes”
Pra fechar, pedimos que ele listasse cinco bateristas que o inspiram e com quem gostaria de tocar, valendo brasileiros e gringos. Ele começa focando no Brasil.
“Paulinho Braga, Tuti Moreno, Jorginho Gomes, Robertinho Silva e Danny Chamber. Foram caras que eu mais paguei pau e ainda pago. E tem muitos outros, claro, Jack DeJohnette, Vinnie Colaiuta… muita gente. Mas acho que com o Jorginho Gomes seria uma história massa. Sou muito fã dos Novos Baianos, acho que foi uma das melhores bandas que o Brasil já teve em termos de conjunto. Ia ser lindo dividir o palco com ele.”
Um baterista em movimento constante
Ynaiã fala de música como quem vive dentro dela: entre turnês, gravações e experimentações. Sua trajetória mistura técnica, inquietação e um senso de coletividade que vem desde o Fora do Eixo. E mesmo com duas décadas de estrada, ele ainda soa como um artista em transformação.
“Acho que ainda tô me descobrindo. Continuo praticando, compondo e experimentando. A música é um bicho que nunca para, e eu também não.”
Boogarins segue rodando o Brasil e o mundo, retornando a Florianópolis no dia 25 (ingressos aqui e praticamente esgotados. E Ynaiã, entre baquetas e microfones, reafirma seu lugar como um dos músicos mais completos da cena contemporânea: um artista que entende que o som vai muito além do palco: é uma forma de estar no mundo.
Crédito das fotos: Juliana Brittes



