Era uma vez em Pinheiros: The Dead South no Carioca Club

Era uma vez em Pinheiros: The Dead South no Carioca Club

(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Show lotado da banda de Saskatchewan no Carioca Club mostra a força do bluegrass e transforma a casa num saloon por uma noite.

Ontem, enquanto estava no metrô a caminho do Carioca Club para o show da The Dead South, percebi que no mesmo vagão havia um cavalheiro com uma ostensiva pescobarba, vestindo um macacão jeans, acompanhado de sua namorada tatuada, de vestido preto e Docs. Pensei comigo mesmo que, indubitavelmente, eles deveriam estar indo para o mesmo lugar que eu. De fato, estavam. E, junto com eles, uma multidão de pessoas também usava macacões, suspensórios, chapéus de cowboy e outros acessórios dignos de um filme de faroeste.

Naquele momento, senti que tinha pisado na bola ao não sair de casa com meu chapéu de Indiana Jones.

Sinceramente, eu não esperava ver a casa tão cheia. Antes da abertura das portas, já havia uma fila considerável e muita gente se aglomerando do lado de fora. Do lado de dentro, a tensão da espera era visível.

A abertura ficou por conta da Tião e os Bravos. Encenando sotaques dignos de personagens do Chico Bento, o quarteto do interior do estado deu o tom certo, animando o público com suas versões caipiras de clássicos do rock, como “Plush”, do Stone Temple Pilots, “Numb”, do Linkin Park, e até “Fogo e Paixão”, do Wando, apresentado como um grande clássico brasileiro. A plateia riu, cantou junto e aplaudiu os rapazes.

Mas a plateia estava ali mesmo era para ver a The Dead South. A banda foi ovacionada assim que entrou no palco, em meio a um coro ensurdecedor. Todo mundo parecia saber cada verso, e não demorou para que a casa inteira cantasse junto. Na grade, uma moça gritava em um inglês macarrônico que amava os canadenses e não acreditava que eles estavam ali, diante dela.

Se nos discos a energia do quarteto é contida, ao vivo acontece o oposto: entre o volume dos instrumentos acústicos amplificados e a performance carregada de carisma, a The Dead South dominou o palco com autoridade. Postos em linha na beirada no palco, violão, banjo, mandolin e violoncelo se alternavam em linhas frenéticas, enquanto a presença vocal de Nate Hilts guiava o público em refrões que soaram quase como hinos.

Era uma vez em Pinheiros: The Dead South no Carioca Club 2
(Alexandre Aimbiré/Under Floripa)

Um destaque especial cabe ao violoncelista Danny Kenyon, que se mexeu, dançou e, sempre alternando entre o arco e os dedos, fazia o instrumento parecer uma extensão de seu corpo.

O setlist, que trouxe um apanhado generoso da carreira da banda, incluiu faixas recentes de Chains & Stakes (2024), como “Tiny Wooden Box” e “Blood on the Mind”, mas também reservou espaço para favoritos dos fãs como “Banjo Odyssey” e, claro, o grande momento da noite: “In Hell I’ll Be in Good Company”, cantada em uníssono pelo público.

Ouvir um álbum da The Dead South no fone é uma experiência completamente diferente de vê-los ao vivo. É sempre incrível ver um artista estrangeiro sorrir diante da entrega do público no Brasil. Eu estava tão embasbacado quanto a banda. No início do show, Hilts disse estar triste por não saber falar português além de umas poucas palavras. Eu, falante nativo, ao terminar este texto, encontro dificuldade para encontrar as palavras certas para descrever a sinergia que havia entre a banda no palco e o público — mas talvez nem precise: quem esteve lá sabe que aquela noite falou por si mesma.

Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.