“CARA, EU AMO A BAD CHAIRS!”
E foi assim que começou a entrevista com o vocalista e guitarrista da Bad Canadians, Eddie Fontenele. Nos encontramos na Comix, tradicional loja de quadrinhos na Rua da Consolação, em São Paulo, e após debatermos entre nós sobre o atual estado dos quadrinhos, preferências entre Marvel e DC e a nova série Absolute Batman, seguimos para um boteco próximo na Alameda Santos.
Depois de trocarmos amenidades e nos atualizarmos sobre onde as nossas vidas nos levaram desde a última vez que nos vimos — Eddie e eu somos amigos de longa data — iniciamos o papo sobre música falando sobre as bandas de Floripa. Foi então que ele confessou sua admiração pela Bad Chairs, além da Dirty Grills e da Budang.
Entre um gole e outro, o assunto naturalmente virou para o momento atual da Bad Canadians — o quarteto paulistano que há oito anos mistura refrões melódicos com intensidade crua, em algum ponto entre o punk e o power pop. Depois do EP Whatever Came First (2020), que colocou o grupo no radar de quem acompanha o underground nacional, a banda agora se prepara para o lançamento do álbum Bad Decisions, gravado no Estúdio Aurora com produção e mix de Gabriel Arbex (Ale Sater, E a Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante), master de Ali Zaher (CPM22) e participação de Bruno Peras (Dinamite Club, Tutu).
O disco, que marca o primeiro álbum cheio da banda, traz dez faixas que passeiam entre o pós-punk e o rock dos one-hit-wonders dos anos 90, sem perder a essência dos primeiros EPs. Entre os destaques está Either Late or Later, faixa do EP anterior que ultrapassou 200 mil plays no Spotify — um marco para uma banda totalmente independente.

Entre a nostalgia e o renascimento
Entre o saudosismo e o barulho novo, a Bad Canadians soa como quem nunca precisou escolher um lado. O que vem deles é cru, melódico e de verdade — não porque buscam isso, mas porque é o único jeito que sabem tocar.
Formada há oito anos entre São Paulo e o interior do estado, a banda mistura melodias afiadas, guitarras diretas e uma intensidade sem pose. À frente, Eddie Fontenele fala como quem observa o cenário com um pé na garagem e outro na história — e sem medo de cutucar onde precisa.
“Não quero causar nem nada: eu cansei de ficar ouvindo sobre Refused. Legal pra caralho Refused, mas quem mais tem aí, mano? Legal pra caralho Alkaline Trio, mas o que mais tem por aí?”
O desabafo vem carregado de afeto, mas também de cansaço com um circuito que, por vezes, se alimenta demais do passado. Pra Eddie, o momento é de renovação — e a Jonabug talvez seja o melhor símbolo dessa nova energia.
“Eles começaram tocando em Jaú, numa casa minúscula, e ano que vem vão estar no Lollapalooza. Isso me deixa muito feliz, porque é menos sobre reflexo na gente e mais sobre ver as pessoas continuando uma história que começou lá atrás. Tem um valor, uma resistência nisso.”
Eddie vê nessa geração algo parecido com o que o rock brasileiro viveu no começo dos anos 2000 — um renascimento DIY, cheio de urgência e pouca pretensão.
“A molecada vê isso e começa a rolar um resgate, quase um grito de expressão. Muita gente não se encaixa em outros estilos, mas vê nessa nostalgia uma forma de se manifestar. E o mais legal: produzem eles mesmos.”
Mas ele não romantiza:
“A resistência real vem das quebradas — e nem sempre é o rock. É muito mais fácil hoje fazer um beat do que juntar uma banda, comprar instrumento, achar alguém pra tocar junto. Mesmo assim, essas bandas novas têm relevância pro momento.”
Entre as que o inspiram, cita com empolgação The Mönic, Oruã, Terraplana e Black Pantera — este último, segundo ele, “veio na hora certa pra mandar todo mundo tomar no cu, no melhor sentido”.
Entre pausas e persistência
O novo álbum da Bad Canadians nasceu depois de uma pausa longa demais pra quem gosta de estar na estrada — mas cheia de movimento nos bastidores.
“Não é nem que a gente ficou cinco anos parado — a gente ficou uns dois anos e meio parado e o resto trampando”, explica Eddie.
A pandemia dividiu a banda entre cidades, paternidades e rotinas novas. Mas, quando voltaram, decidiram fazer diferente: trabalhar com um produtor pela primeira vez.
“O Arbex ajudou muito a gente a formatar as ideias. A gente testou timbres, melodias, até BPM. Foi um processo técnico, mas prazeroso pra caramba.”
A gravação demorou — entre ajustes, mix, master e planejamento —, mas o resultado é o trabalho mais maduro da banda até aqui.
“A gente nunca parou. Só demorou porque quis fazer bem feito”, diz Eddie. “Produzimos nossos próprios clipes, porque curtimos audiovisual e identidade visual.”
Os clipes de “Monumental”, “Dead Stars” e “Cinematic” já estão no YouTube e mostram a veia criativa do grupo, que assina todas as produções. Entre imagens em preto e branco, céus de penumbra e homenagens aos filmes trash de terror, o universo visual da banda se consolida como uma extensão natural do som. Um quarto clipe, de “This Is Ours”, será lançado junto com o álbum dia 27 de outubro.
Entre o pessoal e o coletivo
Apesar de todo o cuidado técnico, o que move a Bad Canadians é a honestidade. E, nesse ponto, Eddie é claro:
“Trabalhar essas referências entre a gente como se fosse uma parada muito pessoal e transformar isso em algo que representa todo mundo da banda… isso deixa a gente muito orgulhoso de querer mostrar pras outras pessoas.”
As influências vêm de lugares diferentes — Tom Petty, Replacements, bandas que quase ninguém mais cita, mas que ajudam a moldar o som e a identidade do grupo.
“A gente quer compartilhar referências por meio da música. Tipo: ‘curtiu essa? Então ouve isso aqui também.’”
Planos e novas ondas
O plano agora é simples: tocar.
“O máximo possível”, diz Eddie.
A banda quer rodar o estado de São Paulo, especialmente no interior do estado. O show de lançamento, no dia 7 de novembro no Estúdio Aurora, em São Paulo, terá participação do duo Zagüaraz e marca o início de uma nova fase que se estende por 2026, com shows pelo estado e novas gravações.
Mas o desejo vai além das fronteiras paulistas. Eddie se anima quando fala sobre a ideia de tocar no Sul:
“A gente adoraria tocar em Floripa. Sempre acompanhamos as bandas daí, e tem uma energia muito foda rolando. Seria incrível dividir palco com essa galera.”
Ele fala disso com o mesmo brilho que usa pra comentar o que anda ouvindo: Chat Pile, banda de Oklahoma que mistura metal e performance desconfortável, e a Bad Chairs, que ele acompanha religiosamente no YouTube.
No fim das contas, o que mais empolga é ver o rock — velho conhecido, muitas vezes dado como morto — respirar de novo.
“Essas bandas chamam outras bandas. A molecada contagia mais molecada. Isso é lindo de ver.”



