Camionero (Buenos Aires, Argentina)

Camionero (Buenos Aires, Argentina)

(Reprodução)

Depois de uns 25 anos ouvindo rock, fazendo rock e vivendo o rock, aprendi que algumas bandas não surgem para tocar no rádio, nem para fazer pose em foto de divulgação. Elas surgem como quem pega a estrada sem GPS, com o tanque meio cheio e a cabeça cheia de coisa pra resolver.

Sem sombra de dúvidas, Camionero é exatamente isso: rock de rota, de estrada de cantina aberta até tarde, de noite mal dormida e trabalho no dia seguinte. Uma dupla argentina que soa maior do que muita banda com o triplo de integrantes.

Formado em 2017, na zona norte de Buenos Aires (Beccar/Villa Martelli), por Joan Manuel Pardo (guitarra e voz) e Santiago Luis (bateria e coros), Camionero nasce depois do fim de outros projetos dos dois, quando a decisão foi simples e radical: guitarra, bateria, zero firula e nenhum baixo. O resultado é um rock cru, que mistura garage rock, blues, hard rock e um espírito old school que parece ter saído direto de um posto de gasolina às três da manhã.

Começar

A própria banda define o som como “rock de ruta, vieja escuela, cantina, noche y velocidad de vehículos pesados”.

E sim, tudo em Camionero gira em torno desse imaginário baseado em caminhões, jaquetas, patches, suor, amizade e resistência cotidiana. Urbanidade em seu máximo elixir.

Parece muito simples, mas é extremamente difícil: Joan resolve a ausência do baixo com timbres graves e afinações que constroem um verdadeiro muro de som a dois, enquanto Santiago segura a pressão com uma bateria pesada, direta e sem concessões. No estúdio, o produtor Dylan Lerner aparece como uma espécie de “terceiro camionero”, ajudando a lapidar esse som que segue sujo, mas nunca desleixado.

A banda tem EP’s lançados e dois ábuns chamados: Club Camionero (2021) e Todo lo sólido se desvanece en el aire (2023), que recomendo ouvir em alto e bom som. Não seria uma surpresa se você começar a sentir, do nada, cheiro de óleo e fumaça. As músicas falam de trabalho, desgaste, noite, relações atravessadas pela dureza do mundo e essa sobrevivência afetiva e operária que todo mundo reconhece, mesmo sem saber explicar.

Enfim, escute logo porque o troço e bom pra caramba, apenas!

Frederico Di Lullo

Frederico Di Lullo

Redator publicitário, letrólogo, jornalista & fotógrafo de shows, nasceu na Argentina, coleciona vinil, é fã incondicional de música e um exímio apreciador de artes degeneradas.