Jão – Memórias Póstumas (2026)

Jão – Memórias Póstumas (2026)
(Reprodução)

Fiz um exercício mental tentando entender Jão. E deixo de usar a palavra “fenômeno”, pois, no lançamento do seu novo trabalho, ele prova mais uma vez que é um dos maiores — senão o maior — artistas de sua geração.

Vivemos uma época em que tudo parece descartável. Tendências surgem e desaparecem em questão de dias, músicas são consumidas em velocidade acelerada e a lógica dos algoritmos parece exigir novidade constante. Ainda assim, Jão conseguiu construir uma identidade que conversa diretamente com a Geração Z, hoje protagonista de boa parte das transformações culturais do país.

Como meu contato com sua obra sempre foi superficial, resolvi fazer o dever de casa: ouvi sua discografia, busquei entrevistas e procurei compreender o contexto que cerca “Memórias Póstumas”, seu quinto trabalho de estúdio em praticamente dez anos de carreira. É o primeiro álbum lançado após o auge alcançado com a reconhecida Superturnê, que percorreu o Brasil de norte a sul, lotando as principais arenas do país. O resultado? Uma surpresa bastante positiva.

O que acabou me chamando a atenção, entretanto, foi a recorrência de críticas apontando uma suposta falta de maturidade artística. Alguns afirmam que o disco abandona a grandiosidade de “Super” e representa uma guinada em direção a uma MPB que, curiosamente, nem chega a ser MPB.

Honestamente, esse argumento me parece precipitado.

Jão tem apenas 31 anos e uma carreira relativamente curta. Exigir dele uma maturidade estética definitiva justamente no momento em que vive sua maior efervescência criativa e comercial parece ignorar que a evolução artística acontece com o tempo.

Talvez essa cobrança diga mais sobre a nossa época do que sobre o próprio artista.

Vivemos uma sociedade dominada pela ansiedade, na qual tudo precisa acontecer imediatamente.

As músicas ficam mais curtas, os ciclos culturais diminuem e a impressão é de que estamos constantemente simplificando a forma como consumimos arte.

É impossível não lembrar, ainda que superficialmente, da “novilíngua” imaginada por George Orwell em 1984: uma redução constante da linguagem e, consequentemente, das possibilidades de pensamento. Guardadas as devidas proporções, parece que fazemos algo semelhante com a cultura, esperando que artistas amadureçam em tempo recorde, como se esse processo pudesse ser acelerado.

No ciclo natural da carreira, Jão realmente precisa fazer outra turnê nacional em 2027 nos moldes da Superturnê? Precisa vender a imagem de um artista plenamente maduro? O novo salvador da MPB? A quem interessa essa cobrança: ao artista ou ao sistema financeiro construído ao seu redor?

Dito tudo isso, vamos ao trabalho em si.

“Memórias Póstumas”, quinto álbum de estúdio de Jão, lançado em 26 de julho de 2026, é facilmente seu trabalho mais íntimo até aqui. O disco nasce de um período profundamente doloroso da vida do cantor. Após a morte repentina do pai, ele se afastou dos palcos por cerca de um ano e meio, reencontrando na música uma forma de homenageá-lo e reorganizar emocionalmente a própria existência.

Esse contexto atravessa praticamente todas as 14 faixas do álbum.

O título, inspirado em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, não funciona apenas como referência literária. Assim como no clássico brasileiro, o álbum trata da memória, da morte, da permanência e da maneira como revisitamos nossas próprias histórias quando somos obrigados a encarar a finitude.

Musicalmente, Jão evita repetir a grandiosidade quase cinematográfica de “Super” (2023). Em vez disso, aposta em uma produção mais contida, permitindo que as canções respirem. Entre os destaques estão “O Amor”, que incorpora discretas influências orientais; “Aurora”, que brinca com elementos suavizados do funk carioca; e “Jabuticabeira” e “Passeios Noturnos”, que flertam com sintetizadores e atmosferas que remetem ao rock e ao pop eletrônico dos anos 1980.

Para mim, porém, “Literatura” é a melhor composição do álbum. Com pouco mais de cinco minutos, a faixa sintetiza boa parte da proposta conceitual do trabalho, aproximando referências literárias da vulnerabilidade emocional que percorre o disco inteiro.

Outro aspecto digno de elogio é a coragem de lançar o disco sem qualquer single prévio.

No fim das contas, “Memórias Póstumas” talvez não seja o álbum que muitos esperavam depois da grandiosidade de “Super”. Mas expande o universo musical criado pelo jovem de Américo Brasiliense e reafirma sua relevância dentro da música brasileira contemporânea.

Mémorias Póstumas – Jão

Gravadora: Universal

Jão acerta ao trocar o espetáculo pela intimidade em "Memórias Póstumas".

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Frederico Di Lullo

Frederico Di Lullo

Redator publicitário, letrólogo, jornalista & fotógrafo de shows, nasceu na Argentina, coleciona vinil, é fã incondicional de música e um exímio apreciador de artes degeneradas.