Se você está lendo esse texto, vai olhar a data da resenha e pensar: “nossa, eles estão bem atrasados”. Sim, desde que recebi de nosso ditador-chefe a tarefa de ouvir o segundo álbum do quarteto de Manchester/Berlin, Mandy, Indiana, intitulado Urgh, percebi que tinha que tomar cuidado para não torcer o nariz em demasia ou fazer grandes elogios que beirassem a adoração — ou ainda fazer comparações rasas com o Geese. Após mais de um mês, espero que essas linhas consigam sintetizar um pouco do que foi ouvir esse grande álbum de 2026.
Surgida na pandemia, a banda lançou seu primeiro álbum em 2023, intitulado I’ve Seen a Way, que obteve boa recepção da crítica gringa e gerou uma turnê que chamou a atenção para o estilo noise/electro/experimental da banda. Ali também fomos apresentados ao peculiar estilo da vocalista Valentine Caulfield, que, neste segundo álbum, faz de seus vocais (cantando letras em inglês e francês) um dos destaques do disco. Em vários momentos, percebe-se uma influência de Kim Gordon na forma de cantar e interpretar de Valentine.
No som, Urgh é uma mistura de noise, experimental, industrial e pós-punk, que cria uma salada musical que já foi feita por outros artistas (Sonic Youth e Nine Inch Nails são exemplos), mas que aqui possui uma pegada e uma originalidade — sim, você pode ter referências e ainda fazer um som original — que tornam este um dos melhores lançamentos deste primeiro semestre.
“Sevastopol” abre o disco mostrando ao ouvinte um barulho nervoso, com o vocal distorcido que é praticamente um instrumento (novamente destaco o trabalho de Valentine Caulfield, um dos grandes pontos altos do álbum). “Magazine” tem uma pegada oitentista, enquanto “Try Saying” mistura sons estranhos com uma percussão indiana. O grande destaque, para mim, é a canção “Cursive”, que tem uma pegada do primeiro álbum do Kasabian e é a mais pop do disco. “Life Hex” é nervosa e sombria, mas a canção seguinte, “Ist Halt So”, novamente mistura percussão com a interpretação angustiante de Valentine. As letras tratam de temas variados, como o desejo por uma vida tranquila, políticos perigosos, a angústia dos dias atuais, a violência e a passividade diante do caos.
Urgh é um álbum com várias camadas, flertando com os extremos, mas que deixa ao ouvinte uma sensação de prazer intenso ao final da audição. Particularmente, gostei bastante da alternância de letras e vocais em inglês e francês. O hype em torno da banda não é exagero: o disco é um convite para sair da zona de conforto (sem deixar de ser pop em alguns momentos). Mandy, Indiana ousou e acertou, o que cria boas expectativas para os futuros lançamentos dessa interessante banda. Atrasados, mas não omissos, deixamos mais essa curadoria para você, leitor. Boa diversão.
URGH – Mandy, Indiana
Gravadora: Sacred Bones Records
