Pode soar óbvio dizer isso, mas ouvir os primeiros segundos de “Prophane Prophecy”, faixa de abertura de A Pound of Feathers, é quase um alívio: os Black Crowes ainda soam como Black Crowes.
É uma introdução clássica da banda: riff rasgado martelando, slide guitar por cima e uma cozinha gorda segurando tudo. O baixo vem carregado de médios, caminhando junto da guitarra, enquanto a bateria soa cheia, imponente. Passado o impacto inicial — o riff, a voz característica de Chris Robinson — o que fica é essa sensação de peso bem distribuído, de banda tocando como um bloco único.
Boa parte desse retorno à forma passa, inevitavelmente, pela relação entre os irmãos Chris e Rich Robinson. Desde a explosão no início dos anos 90 até as múltiplas separações e sequências de discos irregulares que marcaram as décadas seguintes, os Black Crowes sempre foram definidos tanto pelo entrosamento quanto pelo atrito entre os irmãos. A turnê de 30 anos do álbum de estreia, Shake Your Money Maker, foi uma prova de que o entrosamento ainda estava lá.
Eu tava lá. E comprei a camiseta pra provar.
Quando Happiness Bastards saiu, em 2024, o discurso era de retorno: o primeiro álbum de inéditas em mais de uma década, vendido como uma reconexão com as raízes da banda — mais direto, mais cru, mais próximo do som que consagrou os Black Crowes no início dos anos 90. É um álbum irregular, mas serviu como um primeiro passo. Em A Pound of Feathers, Chris e Rich Robinson parecem finalmente pisar em um terreno mais sólido, menos preocupados em provar que ainda são relevantes e mais confortáveis em simplesmente soar como eles mesmos.
Nem tudo funciona o tempo todo. Em “Queen of the B-Sides”, a banda parece tentar recriar o apelo acústico de “She Talks to Angels”, mas o resultado soa mais como uma faixa descartada de Croweology, coletânea acústica lançada em 2010. A segunda metade do álbum também perde um pouco de fôlego e força em comparação com a primeira, ainda que isso não apague o brilho de momentos com aquele cheiro clássico de Black Crowes, como “Cruel Streak”, “Do the Parasite!” e “It’s Like That”.
Ainda há “Eros Blues”, penúltima faixa do disco e minha favorita desde a primeira audição. Ela combina o que há de mais zeppeliniano na banda com aquilo que define, de imediato, a identidade dos Black Crowes.
A Pound of Feathers é um reencontro com aquilo que sempre funcionou — sem precisar provar nada pra ninguém. E tem tudo pra agradar os fãs: a voz de Chris Robinson ainda reina soberana, a guitarra de Rich Robinson continua com um timbre rasgado e inconfundível, o órgão permanece preenchendo os espaços e o coro feminino entra na medida certa. São os Black Crowes fazendo o que sempre souberam fazer — e, dessa vez, soando confortáveis nisso.
A Pound of Feathers – The Black Crowes
Gravadora: Silver Arrow Records
Há um inegável conforto em ouvir algo que é novo, mas que ao mesmo tempo soa familiar.
