Entre nostalgia e lineups previsíveis, Floripa segue regurgitando o próprio passado enquanto a nova cena espera, mais uma vez, do lado de fora.
Todos os dias, abro o Instagram e uma infinidade de portais noticiosos em busca da programação cultural de Florianópolis para atualizar a agenda deste site. É um trabalho ingrato, mas alguém precisa fazê-lo. Em algum momento, porém, criei involuntariamente um jogo onde só eu jogo — e eu sempre perco.
Abro a programação de qualquer evento cultural e tento adivinhar quem está no lineup. Maratona Cultural? Eles estão lá. Festival popular? Lá vêm eles de novo. Show gratuito na praia? Também. Quermesse na igreja do bairro? Provavelmente.
O mesmo nome quase sempre aparece: Dazaranha.
E, antes que alguém comece a falar bobagem ou me acuse de hate gratuito, já deixo claro: não estamos falando sobre gostar ou não da banda. Muita gente gosta. Muita gente cresceu ouvindo. Eu cresci ouvindo. O primeiro show que vi deles foi no ginásio da minha escola, em 1998. O Dazaranha também faz parte da minha história.
Existe uma memória afetiva real ali, construída quando a cidade ainda se enxergava menos como destino turístico e mais como um pedacinho de terra no meio do mar. O João Paulo ainda era chamado de Saco Grande I, e não era incomum ver goiabeiras nos quintais das casas pela cidade. Todo mundo conhecia alguém que tinha um parente com um boi em algum terreno no Sul da Ilha. O Daza virou trilha sonora de uma Florianópolis que ainda era pequena — de praias paradisíacas, meio hippie-alternativa, meio mágica. Hoje, com Chico Martins à frente da banda, eles também se tornaram o rosto sorridente dessa cidade.
Há quem diga que “Vagabundo Confesso” é maior que o “Rancho de Amor à Ilha”. Não sei se é maior, mas certamente é menos mala. Mais do que isso, porém, o Dazaranha e suas músicas passaram a ocupar um lugar raro: deixaram de ser apenas o repertório de uma banda para se tornarem parte da própria identidade da cidade.
O problema começa quando memória afetiva vira política cultural disfarçada de nostalgia.
O Daza faz parte da história da cidade e da memória afetiva de muita gente. O problema é que a exposição constante chegou a um ponto de saturação.
Chega uma hora em que a repetição deixa de parecer homenagem e passa a soar como falta de imaginação. Enquanto os mesmos nomes circulam de palco em palco, uma geração inteira de bandas autorais segue tocando para os mesmos públicos pequenos, nos mesmos espaços apertados, sem nunca atravessar a ponte simbólica para os eventos maiores.
Não é teoria da conspiração. É lógica de produção. Evento público precisa de público. Público conhecido reduz risco. Nome conhecido vende segurança. Bandas menores raramente têm acesso aos mesmos empresários, conexões e estruturas que um artista consolidado.
E assim o ciclo se alimenta sozinho.
O mais curioso é o paradoxo: a cidade vive uma produção musical ativa, diversa e contemporânea. Há dezenas de artistas fazendo trabalhos relevantes agora. Ainda assim, a vitrine oficial da cultura local parece presa numa cápsula do tempo.
Isso não é um problema só de Florianópolis — é global. Não é só em Floripa que a curadoria de festivais parece preguiçosa, chamando sempre os mesmos nomes. Há pouco tempo, eu mesmo criticava o festival The Town pela escalação do Capital Inicial, e virou quase um alívio (cômico) quando não é a Ego Kill Talent abrindo para algum artista internacional. Também não é só em Santa Catarina que o fluxo de verbas públicas acaba direcionado a artistas já consolidados. No Brasil, os dez artistas que mais receberam recursos via Lei Rouanet estão todos entre os maiores nomes do gênero mais popular do país — que, por si só, já domina o mercado.
No caso particular de Florianópolis, a situação se repete em aberrações como a Camerata. Frequentemente tratada como grande referência erudita local, o projeto tem visibilidade, lota apresentações e segue sendo apresentado com um prestígio desproporcional ao risco artístico que assume. Há anos parece repetir a mesma fórmula, enquanto continua abocanhando uma fatia considerável dos recursos culturais disponíveis — muitas vezes diante de um público que prefere acreditar estar diante de alta cultura.
Funcionar funciona. Mas é só isso mesmo?
Mais uma vez, para deixar absolutamente claro: ninguém está dizendo que artistas com importância afetiva e histórica não deveriam tocar na cidade. É óbvio que existe público para isso. Há espaço mais do que suficiente para a Dazaranha e para qualquer nome independente da cena no mesmo palco. O problema começa quando eles parecem ser sempre a primeira, a segunda e a terceira opção — e, se ainda sobrar espaço, acabam sendo a quarta também.
A Dazaranha não é causa nem culpada de nada disso. É apenas o sintoma mais visível de algo maior: o quão privinciana Floripa ainda é quando o assunto é cultura pop.
Uma banda que continua ocupando todos os espaços porque o sistema cultural local aprendeu que repetir o mesmo nome ad nauseam dá menos trabalho do que apostar no presente.
A pergunta não é por que eles estão em todo lugar.
É por que não há mais ninguém no palco com eles.



