Quantas vezes você que me lê — e eu — já não ouvimos essa frase?
Ela reaparece de tempos em tempos, sempre saindo da boca de alguém desinteressante com um ar cansado de quem já decidiu que Floripa é uma gigantesca decepção. Normalmente, vem de alguém que não sai de casa há meses. Ou pior: sai, mas gira eternamente nos mesmos três lugares, como se o resto da cidade não existisse.
Talvez essa pessoa encontre, de vez em quando, os amigos do terceirão num show gratuito do Dazaranha e chame isso de “rolê”.
Aliás: você conhece alguém que já pagou pra ver um show do Daza? Enfim…
Já estamos em meados de abril e, a essa altura do campeonato, já não dá mais pra fingir que é falta de opção — é falta de vontade mesmo.
Num sábado desses, eu estava num TICAN–TICEN estranhamente vazio, com o ar-condicionado no talo, a caminho do Banda de Casinha no Desgosto. Enquanto olhava o Instagram, nossos amigos postaram a agenda da casa acompanhada da famigerada frase:
Floripa não tem nada.
Naquela noite, duas bandas de São Paulo, uma local e uma de Blumenau. Todas excelentes. Na semana seguinte, casa cheia pra Dead Fish. E depois disso, uma sequência que se recusa a tirar o pé. Não tem respiro. É um show atrás do outro. Banda local, banda de fora, banda gringa. Gente começando, gente consolidada, gente que você nunca ouviu falar — ainda.
E isso é só uma agenda. De uma casa.
No centro, toda semana, existe uma pequena constelação de coisas acontecendo simultaneamente. Inferninho da Brocave, Haôma, Bugio — cada um com sua proposta, seu público, seus riscos. Em volta, bares, encontros, rolês que vão se formando meio no boca a boca, meio no algoritmo, meio na persistência.
A gente recomenda a Choperia Éden. Muito chopp pilsen já moveu pauta nessa humilde redação.
Expandiu o mapa?
A Célula, no João Paulo, resiste no mesmo lugar há mais tempo que eu consigo me lembrar e continua abrigando shows e eventos de todas as vertentes possíveis. Tem o DeRaiz, na Lagoa, que recentemente recebeu a Black Pantera — um dos nomes mais fortes do metal nacional hoje — e que no ano passado teve Boogarins, um dos maiores expoentes do alternativo nacional. E até o John Bull, o velho inglês na Avenida das Rendeiras, volta e meia acerta e coloca um show que muita capital maior gostaria de ter. Porra, o Mac DeMarco vai tocar lá!
Mas Floripa não tem nada, né?
Abril só escancara o que já tava ali em fevereiro: a cidade não parou — ela acelerou.
Tem selo lançando coisa, produtora apostando, coletivo organizando evento, banda surgindo o tempo todo. Tem gente carregando bateria no porta-malas, montando palco, queimando amplificador, fazendo flyer, escrevendo release, batendo foto, tomando prejuízo e voltando na semana seguinte. Tem a Birra Feia, a Bruxa Verde, a Lodo, a Flor de Vidro, o Selinho…
É muita gente. Eu nem consigo listar todo mundo de cabeça — e nem comecei a falar das bandas. É uma engrenagem inteira girando, meio no caos, meio na insistência — mas girando.
Mas a gente sabe, né?
Floripa não tem nada.
Infelizmente, a gente sabe que, apesar de tudo isso, sempre vai ter alguém reclamando.
Enquanto você repete essa frase, tem uma galera fazendo acontecer — e muita coisa boa simplesmente passando batida.
E é exatamente isso que a gente tenta evitar.
Essa quarta — e mais recente — iteração do Under Floripa é feita por quatro editores/redatores ranzinzas e mais um grupo maravilhoso de colaboradoras, colaboradores e colaboradorxs. Todo mundo voluntário. Todo mundo tirando tempo pra escrever, colar nos shows, pesquisar — e muitas vezes tirando dinheiro do próprio bolso.
Ninguém paga nossa birita.
A gente não pede PIX pra escrever.
A gente escreve porque gosta — e porque acredita que isso aqui precisa ser registrado.
Depois de muita insistência do Fred, o Under Floripa renasceu justamente dessa vontade de acompanhar, escrever, registrar, dar visibilidade à cena. Mas, depois de um ano, a real é bem simples: a gente não dá conta sozinho.
Hoje somos quatro. E, na prática, dois estão em São Paulo. Eu, inclusive.
Tem show que a gente perde. Banda que a gente não cobre. História que escapa.
E isso incomoda a gente.
Então fica o convite — direto, sem muita cerimônia:
Se você gosta de música
Se você cola em show
Se você escreve, fotografa, filma — ou quer começar
Se você olha pra isso tudo e entende que tem algo muito legal acontecendo
Cola com a gente.
Não precisa ser profissional. Não precisa ter um portfólio absurdo. Na real, nem precisa ter portfólio. Precisa ter vontade.
Porque a cidade tá viva. E isso é legal demais!
Se depois de tudo isso, você ainda acha que “não tem nada” em Floripa, eu pergunto: você tá procurando aonde? Melhor ainda — você tá procurando? Mesmo?



