Stela – Alma Gêmea de Cristal (2026)

Stela – Alma Gêmea de Cristal (2026)
(Reprodução)

A delicadeza elétrica de crescer sem perder o cru.

Existe uma certa ingenuidade na Stela. Não necessariamente aquela ingenuidade associada à falta de experiência, mas uma espécie de abertura, de coisas ainda não completamente resolvidas. A banda parece carregar consigo a sensação de quem está chegando a algum lugar e ainda não decidiu exatamente o que fará quando chegar. É uma banda independente, jovem, cheia de futuro, mas que não parece ter pressa de apagar as marcas do processo para apresentar uma versão mais acabada de si mesma. Talvez esse seja justamente o ponto.

O movimento de uma geração que não tem pressa da perfeição, mas que valoriza o processo e apresenta aquilo que cria com orgulho, como resultado de momentos vividos na realidade da criação humana e do compartilhamento.

Formada em Manaus, no Amazonas, em 2023, a Stela nasceu inicialmente como um projeto solo de Vinícius Lavor e, posteriormente, transformou-se em um quarteto. O primeiro álbum, Serafim Triste, chegou em 2024, reunindo referências de grunge, shoegaze e indie rock em torno daquilo que passou a ser associado à banda como um “rock triste”. Hoje, vivendo em São Paulo, o grupo é formado por Vinícius Lavor (vocal e guitarra), Lygia Mel Couto (baixo), Felipe Gosmano e Felipe Thibeiro.

Mas talvez seja interessante olhar para Serafim Triste não apenas como um primeiro disco, e sim como o registro de uma etapa. Existe nele algo próximo de uma coleção de composições que precisavam, antes de qualquer outra coisa, existir.

A impressão é de que Vinícius Lavor chegou a São Paulo carregando uma espécie de arquivo emocional. Antes de redesenhar o projeto, era preciso materializar aquilo que já havia sido escrito. As músicas parecem guardar essa condição: são diretas, relativamente cruas e pouco interessadas em demonstrar virtuosismo. Não existe uma preocupação evidente em transformar cada composição em uma pequena arquitetura de camadas, texturas e floreios. A Stela parece mais interessada naquilo que acontece entre uma guitarra, uma melodia e uma sensação.

E é justamente aí que a banda encontra sua personalidade.

Há uma contradição interessante na sonoridade da Stela. As músicas podem ser elétricas, com guitarras que carregam o peso do grunge e do shoegaze, mas existe uma suavidade quase doméstica na maneira como o instrumental se encontra com a voz de Vinícius. O canto é doce, às vezes introspectivo, e cria um contraste importante com a aspereza potencial das guitarras. A música não precisa escolher entre ser barulhenta e delicada. Ela pode ocupar os dois lugares ao mesmo tempo.

A banda trabalha em uma escala menor, mais próxima do cotidiano. São relações que dão errado, pessoas que se afastam, desejos que não se realizam, inseguranças, encontros e a dificuldade, bastante contemporânea, de entender o que fazer com os próprios sentimentos.

É uma música sobre a fase em que já não se é exatamente jovem, mas também não se sabe muito bem o que significa ser adulto.

A dependência emocional e os relacionamentos entre jovens adultos são temas centrais em músicas como “Dói Demais”, “Uma Jasmim na Porta da Frente” e “Constelação de Escorpião”. No primeiro trabalho, a relação com o amor aparece frequentemente atravessada pela frustração e pela dificuldade de estabelecer vínculos. “Dói Demais”, por exemplo, parte de uma experiência bastante íntima para construir uma canção sobre a repetição de atitudes e a dificuldade de sair de uma relação que machuca.

Mas a Stela parece ter começado a deslocar esse eixo.

“Constelação de Escorpião”, lançada em 2025, marca uma mudança assumida pelo próprio Vinícius: se a banda havia se tornado conhecida por esse espectro do “rock triste”, a música aparece como uma tentativa de olhar para a possibilidade de um novo amor. A sonoridade ainda mantém o peso do grunge alternativo e do garage rock, mas a letra se abre para uma perspectiva mais otimista. O próprio compositor descreveu a faixa como um contraponto às dificuldades e amarguras relacionais que atravessavam o primeiro álbum.

É curioso perceber essa mudança porque ela acompanha algo maior do que uma simples transformação musical. A Stela parece registrar uma geração que cresceu em meio a uma quantidade enorme de estímulos, opiniões, posicionamentos e possibilidades, mas que talvez esteja descobrindo que nenhuma dessas coisas substitui a necessidade básica de sentir.

Existe uma geração de jovens adultos que aprendeu a falar sobre política, trabalho, identidade, precarização, limites e posicionamento. Uma geração que entrou no mercado carregando personalidade e opinião, muitas vezes antes mesmo de conseguir estabelecer algum tipo de estabilidade. Mas existe também uma espécie de retorno do sentimento para o centro da conversa. Amar alguém, sentir falta, ficar confuso, querer proximidade, sofrer por uma relação ou simplesmente não saber o que fazer com o próprio desejo voltaram a ser assuntos importantes.

A Stela não parece estar tentando provar que sabe fazer música. Parece estar tentando fazer música porque precisa dizer alguma coisa.

Isso ajuda a entender também a trajetória do projeto. O que começou como uma produção solo de Vinícius Lavor em Manaus ganhou corpo como banda, atravessou a distância entre os integrantes, chegou aos palcos e, posteriormente, passou a assumir uma produção mais estruturada. Em “Constelação de Escorpião”, por exemplo, a banda já descrevia um processo de gravação mais profissional, com bateria e amplificadores reais, além da combinação entre equipamentos analógicos e digitais.

O segundo disco, alma gêmea de cristal, lançado em junho de 2026, parece menos uma ruptura e mais uma continuação desse movimento de crescimento. O catálogo atual da banda já apresenta uma ampliação considerável do universo criado em Serafim Triste, com faixas como “estorvo”, “aos prantos, relâmpagos”, “sincronizando a aura”, “linhas espirais” e “desejo em açúcar”.

Talvez seja cedo para dizer exatamente onde a Stela vai chegar. E existe algo de bom nessa incerteza.

A banda parece estar naquele intervalo raro entre aquilo que já conseguiu construir e aquilo que ainda pode se tornar. Existe o cru, existe a experiência, existe uma identidade começando a se consolidar e existe, sobretudo, espaço para transformação.

No fim, talvez seja isso que torna a Stela interessante: ela não soa como uma banda que chegou pronta. Soa como uma banda que está crescendo diante de quem escuta.

E, para uma banda que fala tanto sobre crescer, talvez não pudesse ser diferente.

Alma Gêmea de Cristal – Stela

Gravadora: Independente

A Stela não soa como uma banda que chegou pronta; soa como uma banda que está crescendo diante de quem escuta.

Ana Carolina Terhorst

Ana Carolina Terhorst

Designer de formação, bagunceira de vocação. Meu lema é bagunçar pra depois encaixotar tudo no lugar. Deito no chão do quarto pra ouvir música pelo chão gelado. Não sou muito técnica mas sei exatamente quando me arrepia. Tenho uma guitarra velha que eu achava que era uma Fender mas é só uma Squier.