Raimundos abrindo pro Guns N’ Roses. Sério?

Raimundos abrindo pro Guns N’ Roses. Sério?

(Green Prophet/Unsplash)

A escolha da produtora escancara a decadência da banda de Digão e o conservadorismo do público rockeiro brasileiro, que insiste em ouvir as mesmas coisas enquanto ignora uma cena cheia de nomes novos que mereciam essa vitrine.

Com um misto de frustração e incredulidade, ouvi o locutor Titio Marco Antônio anunciar em seu programa diário na Kiss FM, o Alternativa, que os Raimundos abririam todos os shows da turnê do Guns N’ Roses no Brasil. No Instagram, nosso conhecido de longa data Marcelo Costa, do Scream & Yell, ironizou citando os comentários que rolaram após o show do System of a Down, lembrando da Ego Kill Talent — aquela banda que abre todos os shows gringos, mas que ninguém de fato curte.

Pois bem, a grande notícia musical no Brasil ontem foi o anúncio da Mercury Concerts de que todos os cinco shows de Axl, Slash e companhia teriam a abertura dos Raimundos. Eu nem deveria me importar, já que não vou ao show. Mas me importo.

E me importo o suficiente pra escrever um textão a respeito.

Vamos falar a real: a banda não tem mais relevância desde a saída do vocalista Rodolfo Abrantes, lá no início dos anos 2000. Com o Digão à frente, os Raimundos viraram um cover de si mesmos, repetindo os mesmos sons sem o carisma do vocalista que era, de fato, a cara da banda. Seguir em frente após o falecimento do baixista Canisso só escancarou essa decadência. Não sobrou nem o baterista Fred Castro, que gravou todos os álbuns da época áurea nos anos 90. O que existe hoje no palco é apenas “Digão e Amigos” — e quase nada de Raimundos.

Pra piorar, a banda envelheceu mal pra cacete. A fusão de ritmos nordestinos com punk e hard rock — ou “forrócore”, como eles chamam — até tem sua graça, mas as letras ficaram datadas e imperdoáveis. Em tempos em que causas sociais ganharam mais relevância e sensibilidades mudaram, elas soam extremamente problemáticas. Digão pode até tentar se esquivar dizendo que o funk é “pior”, mas eu nunca ouvi um funk falando abertamente de pedofilia e abuso como “Me Lambe”. Não é à toa que o próprio Rodolfo pulou fora quando se converteu: mesmo naquela época, cantar aquelas letras não fazia sentido. Hoje, é simplesmente vergonhoso.

E aí tem o Digão, que por si só já é suficiente pra não curtir mais a banda. O sujeito parece gastar mais tempo sendo um reacionário de segunda categoria do que fazendo música — tipo um Roger Moreira com menos cérebro e ainda menos graça. Declarou voto no Bolsonaro e tentou se esquivar dizendo que “não é bolsonarista”, como se covardia política fosse virtude. Recentemente, expulsou um fã de show porque gritou “sem anistia”. Depois se fez de vítima e jurou que nunca usou o palco como palanque.

Simplesmente patético.

Hoje, o cara parece mais preocupado em agradar tiozão de motoclube do que em evoluir, tanto musicalmente quanto como pessoa. Um exemplo? A vez em que postou no Instagram uma foto de uma pizza triste, se orgulhando de tomar café da manhã com pizza fria e café preto como se isso fosse a epítome do “rock n’ roll”.

Se ser rock n’ roll é ser um fodido, então parabéns, Digão. Missão cumprida.

Reacionarismo e sensibilidades à parte, sob a alcunha dos Raimundos, Digão continua fazendo o mesmo som há trinta anos. O álbum XXX, lançado ano passado, é a prova disso: riffs requentados, letras de duplo sentido recicladas, referências batidas e absolutamente nada de novo.

Mas não é por isso tudo que eu estou irritado o suficiente pra escrever.

O que realmente incomoda é o fato de os Raimundos terem sido chamados pra abrir uma turnê do tamanho da Guns N’ Roses, o que escancara uma questão muito maior: o conservadorismo do rockeiro brasileiro. Gente tacanha que continua ouvindo as mesmas bandas de sempre, sem dar espaço pro novo. É o público que odeia Måneskin, mas adora Greta Van Fleet. Que prefere pagar couvert pra ouvir banda cover tocando Creedence no Chopp do Gus do que apoiar artistas autorais que estão ralando pra fazer som próprio.

Eu ouvia Raimundos quando era adolescente, mas uma hora a gente deixa as coisas de criança de lado e vira adulto. O roqueiro padrão que acha que ser roqueiro é usar preto e reclama que o Roger Waters é esquerdista não.

Esse espaço que o Digão & Cia. vão ocupar — e que às vezes é ocupado pelo Capital Inicial — poderia ser usado por literalmente qualquer outra banda que carece de apoio e espaço na grande mídia. Tem muita gente boa que poderia aproveitar essa divulgação e alcançar um público maior. Bandas com estética e sonoridade próximas ao Guns, que poderiam esquentar o público, como Sioux 66, Malvada, Electric Mob, Carro Bomba, Sunroad

Mas não: a produtora resolveu ser mais conservadora que o perfil do Instagram do Digão.

Bom, pelo menos não foi a Ego Kill Talent…

Serviço:

  • Guns n’ Roses (Expirado) – Because What You Want and What You Get Are Two Completely Different Things

    São José – SC

  • Abertura com: Raimundos
  • Data: 21 de outubro, 2025
  • Local: Arena Opus
  • Endereço: SC-281 4000, Sertão do Maruim, São José – SC
  • Abertura das Portas: 16h00
  • Censura: 18 Anos
  • Garanta seu Ingresso
Alexandre Aimbiré

Alexandre Aimbiré

Três quatis num sobretudo. Eterno estudante de Letras, guitarrista de fim de semana, DJ ocasional e arquiinimigo do Skylab. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.