O retorno do Primavera Sound ao Brasil em 2026 carrega, acima de tudo, um peso curioso: depois do hiato de 2024 e 2025, o festival precisava provar que ainda faz sentido por aqui. E, olhando friamente para o line-up anunciado, a resposta parece ser SIM! ainda que com algumas ressalvas importantes.
Pensando em estrutura de festival, dá pra dividir o cartaz em três categorias bem claras. As bandas “A”, os headliners absolutos, cumprem o papel com folga. Gorillaz e The Strokes são duas das bandas mais relevantes da música alternativa dos últimos 25 anos, ponto.
No caso do Gorillaz, será apenas a segunda vez do projeto no Brasil, depois da histórica apresentação de 2018. Soma-se a isso o fato de Damon Albarn e companhia terem lançado um disco extremamente elogiado recentemente, o aclamadíssimo, eloquente e querido “The Mountain”, recolocando a banda num momento criativo forte. Já o The Strokes retorna ao país depois de nove anos, carregando uma pequena dívida moral com o público brasileiro após um show morno no Lollapalooza Brasil 2017. Desde então, porém, muita coisa mudou: a banda voltou a soar viva no palco, especialmente após apresentações recentes como a do Coachella, que reacenderam a expectativa em torno do grupo.
Por isso, das atrações âncora, honestamente, não há muito o que questionar.
O problema aparece na chamada “categoria B”: aquelas bandas grandes o suficiente para valorizar um line-up, mas que dificilmente sustentariam um estádio sozinhas. E é justamente aí que sinto uma queda relevante em comparação com a edição brasileira de 2023.
Naquele ano, além de The Cure e The Killers como headliners, o festival ainda entregava nomes como Bad Religion, Pet Shop Boys, Beck e Marisa Monte. Artistas que talvez não fossem o motivo principal da compra do ingresso, mas que transformavam o festival em algo mais encorpado, mais “imperdível”.
É justamente esse tipo de nome que parece faltar agora.
Agora, por outro lado, e talvez seja a maior virtude hoje do Primavera Sounds SP, é que a categoria “C” comparte parte disso com uma curadoria muito mais interessante do que a maioria dos outros festivais brasileiros (leia-se The Town, Rock in Rio e Lollapalooza). Mesmo sem as bandas intermediarias, o evento continua apostando em projetos promissores e menores, bandas nichadas e artistas como Los Thuthanaka (álbum do ano pela pitchfork, que sequer está no Spotify); Mannequin Pussy; CMAT; Nation of Language; Smerz; Model/Actriz e nacionais como Zé Ibarra; Julia Mestre; Gab Ferreira; Ana Frango Elétrico e Ebony.
É justamente isso que ainda mantém o Primavera relevante. Palavras mais, palavras menos, o festival continua oferecendo uma experiência de descoberta. Você compra ingresso para ver Gorillaz e The Strokes, mas inevitavelmente termina o fim de semana assistindo alguma banda desconhecida num palco secundário às quatro da tarde e pensando: “caralho, isso aqui valeu a viagem”.
Claro que existe um ponto importante nessa conversa: preço. Os valores brasileiros ainda não foram divulgados oficialmente, mas a referência argentina assustou bastante. Passaportes VIP beirando os três mil reais para dois dias de festival colocam o Primavera num patamar delicado, principalmente em um cenário econômico onde escolher um festival significa abrir mão de vários outros shows ao longo do ano.
Poderia ser melhor? Sem dúvida. Um ou dois nomes de peso na camada intermediária fariam esse line-up crescer absurdamente. Mas também passa longe de ser um festival ruim, principalmente se comparado ao cenário atual dos grandes eventos brasileiros, cada vez mais homogêneos.
Agora, no fim das contas, continuo acreditando na ideia de simplesmente ir e se entregar à experiência. Caminhar entre palcos, descobrir bandas novas, ver ativações espalhadas pelo festival e assistir dois shows gigantescos de bandas que raramente passam pelo Brasil ainda parece um ótimo negócio.



